Castro Alves

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Castro Alves
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Antônio Frederico de Castro Alves (Fazenda Cabaceiras, Bahia, 14 de Março de 1847 - Salvador, Bahia, 6 de Julho de 1871) foi escritor e poeta brasileiro do romantismo. Seus versos são divididos, pelos estudiosos, entre aqueles preocupados com as causas sociais e os amorosos. Estudante de direito no Recife e em São Paulo, levou uma vida boêmia e ativa, vindo a falecer aos vinte e quatro anos, de tuberculose.

Citações[editar]

  • Eu sinto em mim o borbulhar do gênio[1]
  • Que sou pequeno — mas só fito os Andes.[1]
  • O meu cinismo passa a misantropia. Acho-me bastante afetado do peito, tenho sofrido muito. Essa apatia mata-me.
    1863, no Recife, carta a Marcolino de Moura.[2]
  • Trevas e luz. Tormentas e bonanças. Amargos e ambrosias... É assim que eu vivo... A dor e o prazer são as únicas afirmações da existência... Convenço-me então de que existo.
    1867, em Salvador, carta a Regueira Costa.[2]
  • Sou preguiçoso (Isto é velho).
    1868, Rio de Janeiro, carta ao amigo e futuro cunhado Augusto Álvares Guimarães.[2]
  • Nós os filhos do norte (consente este norte; sabes que é palavra relativa) sonhamos S. Paulo o oásis da liberdade e da poesia plantado em plenas campinas do Ypiranga... Pois o nosso sonho é realidade e não é realidade... Se a poesia está no envergar do ponche escuro e largar-se campo fora a divagar perdido nestes gerais limpos e infinitos como um oceano de juncos; se a poesia está no enfumaçar-se do quarto com o cigarro clássico, enquanto la fora o vento enfumaça o espaço com a garoa (é uma névoa espessa como nuvem que se arrastasse pelas ruas) com a garoa ainda mais clássica; se a poesia está no espreitar de uns olhos negros através dos balcões* [*É para dar-lhes um caráter espanholado] ou através de das rendas da mantilha que em amplas dobras esconde as formas das moças, então a Pauliceia é a terra da poesia.
    1868, São Paulo, carta ao amigo e futuro cunhado Augusto Álvares Guimarães.[2]
  • Sobre "Os Escravos" que ainda escrevia:
    É um canto do futuro. O canto da esperança e nós não devemos esperar? Sim, e muito e sempre...
    id. ib.
  • Caminhai, moços, ide ao teatro. Entrai, homens do povo, bebei a luz daquele tabernáculo.
    in "Relíquias": "Impressões de Teatro", sob pseudônimo de Antony.[2]
  • Sabe que o meu trabalho precisa de uma plateia ilustrada. Precisa talvez mesmo de uma plateia acadêmica. O lirismo, o patriotismo, a linguagem creio que serão bem recebidos por corações de vinte anos, porque o Gonzaga é feito para a mocidade.
    1868, São Paulo, carta ao ator Joaquim Augusto Ribeiro de Souza, que encenaria sua peça.[2]
  • Eis-me aqui na Corte há quatro dias, eu, pobre inválido, que não podia chegar até a sala!... Que força, que mola estranha deu vida ao cadáver? Foi Deus. O Deus de Lázaro sustentou-me nesse instante em que a amizade acompanhou-me.
    25 de maio de 1869, Rio de Janeiro, carta "Aos amigos de S. Paulo", após o acidente de caça que lhe custara o pé.[2]

Excertos[editar]

  • O Laço de Fita

Não sabes, criança? 'Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.

  • O Livro e a América

Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão-cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É gérmen — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.

  • Bandido Negro

Trema a terra de susto aterrada...
Minha égua veloz, desgrenhada,
Negra, escura nas lapas voou.
Trema o céu ... ó ruína! ó desgraça!
Porque o negro bandido é quem passa,
Porque o negro bandido bradou:

Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

Poeta e poesia[editar]

  • O poeta é o músico da inteligência, assim como o músico é o poeta do ouvido.
    in "Relíquias": "Impressões da leitura das poesias do Sr. A. A. de Mendonça", 1864.[2]
  • A poesia assimila a si todas as nuances das ideias das épocas, enroupa-se do manto da natureza, que a cerca.
    id. ib.[2]
  • A poesia, pois, na terra dos Andradas, dos Pedros Ivos, e dos Tiradentes deve ser majestosa como as matas virgens da América, arrojada, como seus rios gigantes, livre, como os ventos, que passam gementes por suas várzeas, que zurzem os costados pedregosos dos seus gigantes de granito. A poesia enfim deve de ser o reflexo desta terra.
    id. ib.[2]
  • O poeta é uma harpa entregue às ventanias da noite, onde a brisa acha um canto de amor, o vento frio das desoras um lamento, o vendaval um trono lúgubre de morte.
    id. ib.[2]
  • A poesia moralizadora e filosófica é o noivado da fantasia com a razão. Poesia sublime, que cantando ensina, maldizendo regenera, chorando purifica.
    id. ib.[2]
  • A poesia moral, filtrando no coração, aí entorna o perfume da virtude, e mesmo quando a memória tem-na esquecido, o coração guarda dela uma reminiscência suave, como essas ânforas antigas, quando mesmo esgotadas, rescendem os aromas, que se lhe conglutinaram.[2]
  • No Brasil, onde há tanto talento, mas também tanto marasmo, os poucos sacerdotes da poesia não devem consentir que o fogo sagrado se extinga no sacrário da inteligência.
    Id. ib.[2]
  • A poesia é um sacerdócio. — Seu Deus — o belo. — Seu turibulário — o Poeta.
    in "Relíquias": "Poesia", 1864.[2]

Sobre[editar]

  • "Palpita em sua obra o poderoso sentimento de nacionalidade, essa alma da pátria, que faz os grande poetas, como os grandes cidadãos."
    José de Alencar[1]
  • "O que distingue a poesia de Castro Alves, em qualquer de suas formas, é um timbre inconfundivelmente nosso, e não só o timbre senão também a maneira de ver e de sentir o ambiente e a vida brasileira."
    Eugênio Gomes[3]
  • "Com o seu frescor de orvalho e fulgor de diamante, a poesia de Castro Alves não sofre a injúria do tempo que danifica as glórias e enxota as notoriedades."
    Lêdo Ivo[1]
  • "Poeta épico foi, até agora, Castro Alves, o maior de sua terra. Nunca em nossa língua se ouviram cantos heroicos tão emocionantes e tão elevados como esses poemas de Pedro Ivo, de Ode ao Dous de Julho, de Deusa Incruenta, do No Meeting do Comité du Pain, de Visão dos Mortos, do Navio Negreiro, do Adeus, meu canto..."
    Afrânio Peixoto[1]
  • "Recentemente, num grande cenário, na Sorbona, em Paris, o Professor Georges Le Gentil proclamava que a América contribuíra com duas obras para a literatura universal: a "Cabana do Pai Tomás", de Beecher Stove e a "Cachoeira de Paulo Afonso", de Castro Alves."
    Afrânio Peixoto (1944)[4]
  • "A influência do Poeta foi além: seus versos, que comoviam o coração e impressionavam a inteligência, ouvidos, aplaudidos, decorados e repetidos, por moços que iam ser donas e varões, que iriam ainda comover e impressionar a crianças, rapazes e donzelas, preparavam a geração que, vinte anos mais tarde, faria a Abolição."
    Afrânio Peixoto[4]
  • "Ele era grande e bom: massa para os deuses."
    Guilherme de Castro Alves (irmão)[4]
  • Castro Alves do Brasil (excerto, traduzido)
deixa-me a mim, poeta da nossa América,
coroar a tua cabeça com os louros do povo.
Tua voz uniu-se à eterna e alta voz dos homens.
Cantaste bem. Cantaste como se deve cantar.
Pablo Neruda[5]
  • "Havia nele um sentido divinatório que lhe insuflava soluções difíceis de esperar no seu tempo."
    Fausto Cunha[1]
  • "Castro Alves - o torrencial, o magnífico, o ofuscante Castro Alves, cujo gênio verbal nos assombra como uma força da natureza."
    Júlio Dantas[1]
  • "O artista de mais rica virtuosidade descritiva que já houve entre nós, o nosso primeiro regente de orquestra poética, o rei das cores e dos esplendores, mostrou-se também um sequioso de verdade, um esfomeado de justiça."
    Agripino Grieco[1]

Adeus de Eugênia Câmara[editar]

  • Amante do poeta, a atriz portuguesa Eugênia Câmara termina o romance em São Paulo no ano de 1868; após o rompimento o poeta se acidenta com um tiro no pé que é amputado no ano seguinte, no Rio de Janeiro; ali, antes de voltar definitivamente à Bahia, ele escreve o poema "Adeus" a ela que, em resposta, escreveu os versos seguintes, publicados em 1910 por Xavier Marques (foi feita a atualização ortográfica):[6]

Adeus, irmão desta alma, digo-te Adeus!
Mas deixa que eu evite esse jamais! —
Que o céu se compadeça aos rogos meus
E um dia cessarão teus e meus ais!

Sim que Deus iluminou a tua fronte
Com um raio divinal de Gênio! e Glória!...
Vive, sonha, canta, este horizonte!...
O Brasil quer teu nome em sua história

A Família, esse Lar augusto e Santo!
Cercará teu sofrer de muito amor.
Em regaço de irmãs irá teu pranto
Salvar-te junto ao trono do Senhor.

Falas-me em risos! a mim
Das afeições descrente e nua!...
Pode-se encontrar outra alma
Depois de reinar na tua?!!!
Da perdida criatura
O corpo da terra é,
Mas a alma voa ao céu
Levando a crença e a fé.
E eu levo na hora extrema
A tua pálida imagem
Gravada dentro em minh'alma
Como celeste miragem!
O Gérmen de que me falas
Crença! e Fé! não é mortal,
Deus olha piedoso o Mártir
Triunfarás desse mal.
Eu não me iludo. Eu te amo!
Quer na vida quer na morte;
A um só dos teus olhares
Será tua a minha sorte.
Aquela noute!... oh! silêncio
Noute de fel e de amor
Em que dentro em duas almas
Houve um poema de dor!...
A multidão me sorria
E o meu ser estava contigo,
Nesse olhar belo e sereno
Minh'alma encontrou abrigo.
Eras o anjo d'outra hora
E eu cairia a teus pés
Se inda mesmo moribundo
Tu me dissesses — Talvez!...
Saí! dali alquebrada
Sem forças para lutar
Com desejos de morrer,
Com vida p'ra te adorar.
Foi minha filha entre nós
O Anjo da redenção
Falei-lhe de ti! Chorou!...
Foi seu pranto meu — Perdão!...
Adeus! Se um dia o Destino
Nos fizer ainda encontrar
Como irmã ou como amante
Sempre! Sempre! me hás de achar.

Catete, 17 [Novembro de 1869]
2 horas da noite. Adeus!!

Referências[editar]

  1. 1,0 1,1 1,2 1,3 1,4 1,5 1,6 1,7 1,8 Melhores Poemas de Castro Alves, Global Editora, São Paulo, 1983, 2ª ed, p. 13
  2. 2,00 2,01 2,02 2,03 2,04 2,05 2,06 2,07 2,08 2,09 2,10 2,11 2,12 2,13 2,14 2,15 Obras Completas de Castro Alves, 1944. Castro Alves. Col: Livros do Brasil. 2. [S.l.]: Companhia Editora Nacional. 562 páginas. Introdução e notas de Afrânio Peixoto.
  3. Carlos Faraco, Francisco Moura, Língua & Literatura. Ática, São Paulo, 1983, 2.ª ed., vol. 2, 255 p., p. 82
  4. 4,0 4,1 4,2 Castro Alves (1944). Obras Completas de Castro Alves. 2. [S.l.]: Companhia Editora Nacional. 562 páginas. Introdução e notas de Afrânio Peixoto
  5. Pablo Neruda, Canto Geral: "Castro Alves do Brasil" (IV Canto, poema 29.º), 1950
  6. Castro Alves (1944). Obras Completas de Castro Alves. 1. [S.l.]: Companhia Editora Nacional. 500 páginas. Introdução e notas de Afrânio Peixoto