José Saramago

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José Saramago
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Prêmio Nobel de Literatura (1998)

José Saramago (16 de novembro de 1922 - 18 de junho de 2010), é um escritor português.


  • "Um escritor é um homem como os outros: sonha. E o meu sonho foi o de poder dizer deste livro, quando terminasse: 'Isto é um livro sobre o Alentejo'."
- citado em "José Saramago: il bagaglio dello scrittore‎" - Página 41, de Giulia Lanciani - Publicado por Bulzoni, 1996 ISBN 8871199332, 9788871199337 - 256 páginas
  • "Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute."
- pronunciamento no Forum Social Mundial, em Porto Alegre, fevereiro de 2002; citado em "Las leyes antidiscriminatorias en el Mercosur: Impactos de la III conferencia mundial contra el racismo, la discriminación racial, la xenofobia y las formas conexas de intolerancia, Durban, 2001: informe sobre el seminario realizado en Montevideo, 29 y 30 de abril de 2002", Por Organizaciones Mundo Afro, Publicado por Organizaciones Mundo Afro, 2002 163 páginas
  • "Eu, no fundo, não invento nada. Sou apenas alguém que se limita a levantar uma pedra e a pôr à vista o que está por baixo. Não é minha culpa se de vez em quando me saem monstros."
- reportagem "Literatura: Saramago doutor honoris causa da Universidade Autónoma Madrid", da Agência Lusa (2007-03-15), publicada pela Rádio Mirasado.
  • "Estamos usando nosso cérebro de maneira excessivamente disciplinada, pensando só o que é preciso pensar, o que se nos permite pensar."
- Na palestra de abertura do curso "Literatura e poder. Luzes e sombras", na Universidade Carlos III, em Madri, em 19 de janeiro de 2004, conforme citado por Marco Aurélio Weissheimer, no artigo "Saramago prega retorno à filosofia para salvar democracia", na Agência Carta Maior.
  • "Nossa maior tragédia é não saber o que fazer com a vida".
- Na palestra de abertura do curso "Literatura e poder. Luzes e sombras", na Universidade Carlos III, em Madri, em 19 de janeiro de 2004, conforme citado por Marco Aurélio Weissheimer, no artigo "Saramago prega retorno à filosofia para salvar democracia", na Agência Carta Maior.
  • "Por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o mais horrendo e cruel."
- "O factor Deus", publicado em jornal “Público” de 18/09/2001
- citado em "A ficção cética‎" - página 127, de Gustavo Bernardo - Publicado por Annablume, 2004 ISBN 8574194433, 9788574194431 - 272 páginas
  • "Por que, para que e, a mais importante, para quem, são as três perguntas fundamentais que deveríamos fazer ao primeiro-ministro, ao professor, ao pai, ao filho, quase a propósito de tudo o que ocorre. O problema é que isso dá um pouco de trabalho."
- artigo "Saramago: A democracia é uma comédia", da Agência EFE, publicado no Jornal do Brasil em 19/01/2004
  • "Se começássemos a dizer claramente que a democracia é uma piada, um engano, uma fachada, uma falácia e uma mentira, talvez pudéssemos nos entender melhor."
- Revista Veja, Edição 1842 . 25 de fevereiro de 2004
  • Escrevo para "tentar entender, e porque não tem nada melhor para fazer"
- citado em reportagem da Efe, em Arrecife de Lanzarote (Espanha), "Saramago diz que escreve por não ter 'nada melhor para fazer'", publicada na Folha de São Paulo de 04/02/2007
  • "O universo não tem notícia da nossa existência."
- entrevista a Adelino Gomes, no Público, de 13-11-2005
  • "Há uma pergunta que me parece dever ser formulada e para a qual não creio que haja resposta: que motivo teria Deus para fazer o universo? Só para que num planeta pequeníssimo de uma galáxia pudesse ter nascido um animal determinado que iria ter um processo evolutivo que chegou a isto?"
- entrevista a Adelino Gomes, no Público.
  • "Não é a pornografia que é obscena, é a fome que é obscena."
- entrevista no Programa Jô Soares
  • "A ignorância está se expandindo de maneira aterradora."
- José Saramago, escritor português, prêmio Nobel de Literatura
- Fonte: Revista Veja, Edição 1 677 - 29 de novembro de 2000
  • "Se sou pessimista é porque o mundo é péssimo, só isso."
- José Saramago, escritor português, negando que tenha o pessimismo que costumam lhe atribuir
- Fonte: Revista ISTOÉ Gente, edição 278 - 06/12/2004

Obras[editar]

A Caverna[editar]

  • "(...) o trabalho que deixou de ser o que havia sido, e nós, que só podemos ser o que fomos, de repente percebemos que já não somos necessários no mundo..."
  • "Duas fraquezas não fazem uma fraqueza maior, fazem uma força nova."
  • "A vida é assim, faz-se muito de coisas que acabam, Também se faz de coisas que principiam, Nunca são as mesmas."
  • "Perder tempo a explicar por que gosta seria pouco menos que inútil, há coisas na vida que se definem por si mesmas, um certo homem, uma certa mulhar, uma certa palavra, um certo momento, bastaria que assim o tivéssemos enunciado para que toda a gente percebesse de que se tratava, mas outras coisas há, e que até poderão ser o mesmo homem e a mesma mulher, a mesma palavra e o mesmo momento, que, olhadas de um ângulo diferente, a uma luz diferente, passam a determinar dúvidas e perplexidades, sinais inquietos, uma insólita palpitação..."
  • "... enquanto houver vida, haverá esperança. Sim, é certo, por mais espessas e negras que estejam as nuvens sobre nossas cabeças, o céu lá por cima estará permanentemente azul, mas a chuva, o granizo e os coriscos é sempre para baixo que vêm, em verdade não sabe uma pessoa o que pensar quando tem de fazer-se entender com uma ciência dessas"
  • "Obrigado por teres posto a tua mão sobre a minha"
  • "As coisas que parecem ter passado são as que nunca acabam de passar"
  • "Ainda que te possa parecer estranha a comparação, os gestos, para mim, são mais do que gestos, são como desenhos feitos pelo corpo de um no corpo de outro."
  • "O momento das carícias voltou a entrar no quarto, pediu desculpa por ter-se demorado tanto lá fora, Não encontrava o caminho, justificou-se, e, de repente, como aos momentos algumas vezes acontece, tornou-se eterno."
  • "A pena pior, minha filha, não é a que se sente no momento, é a que se vai sentir depois, quando já não houver remédio, Diz-se que o tempo tudo cura, Não vivemos bastante para tirar-lhe a prova."
  • "...assim é que a vida deve ser, quando um desanima, o outro agarra-se às próprias tripas e faz delas coração"
  • "Autoritárias, paralisadoras, circulares, às vezes elípticas, as frases de efeito, também jocosamente denominadas pedacinhos de ouro, são uma praga maligna, das piores que têm assolado o mundo. Dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo, como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais dificultosa operação das aritméticas humanas, dizemos aos abúlicos, Querer é poder, como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inverter todos os dias a posição relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, Começar pelo princípio, como se esse princípio fosse a ponta sempre visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegam-nos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar estrangulamentos, coisa impossível de acontecer na vida dos novelos e, se uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida. "

A Noite[editar]

  • "Não se pode trabalhar num esgoto sem cheirar a esgoto"

Ensaio sobre a Cegueira[editar]

  • "Foi trabalhoso abrir a cova. A terra estava dura, calcada, havia raízes a um palmo do chão. Cavaram à vez o motorista, os dois polícias e o primeiro cego. Perante a morte, o que se espera da natureza é que percam os rancores a força e o veneno, é certo que se diz que o ódio velho não cansa, e disso não faltam provas na literatura e na vida, mas isto aqui, a bem dizer, não era ódio, e de velho nada, pois que vale um roubo de um automóvel ao lado do morto que o tinha roubado, e menos ainda no mísero estado em que se encontra, que não são precisos olhos para cavar mais fundo que três palmos."
  • "A culpa foi minha, chorava ela, e era verdade, não se podia negar, mas também é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada ato nosso nós puséssemos a prever todas as consequências dele a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala."
  • "Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos, façamos tudo para não viver inteiramente como animais."
  • "O mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos."
  • "A maior dificuldade para chegar a viver razoavelmente no inferno é o cheiro que lá há."
  • "Perguntar de que morreu alguém é estúpido, com o tempo a causa esquece, só uma palavra fica, Morreu"
  • "Na morte a cegueira é igual para todos."
  • "Quando a aflição aperta, quando o corpo se nos desmanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos."
  • "O costume de cair endurece o corpo, ter chegado ao chão, só por si, já é um alívio, Daqui não passarei."
  • "Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa somos nós"

Ensaio sobre a Lucidez[editar]

  • "a fé, abençoada seja ela para todo sempre, além de arredar montanhas do caminho daqueles que do seu poder se beneficiam, é capaz de atrever-se às águas mais torrenciais e sair delas enxuta."
  • "Aqui, cada um com seu desgosto e todos com a mesma pena."
  • "...é o que as palavras simples têm de simpático, não sabem enganar."
  • "O código genético disso a que, sem pensar muito, nos temos contentado em chamar natureza humana, não se esgota na hélice orgânica do ácido desoxirribonucléico, ou DNA, tem muito mais que se lhe diga e muito mais para nos contar, mas essa, por dizê-lo de maneira figurada, é a espiral complementar que ainda não conseguimos fazer sair do jardim de infância, apesar de multidões de psicólogos e analistas das mais diversas escolas e calibres que têm partido as unhas a tentar abrir-lhe os ferrolhos."

Memorial do Convento[editar]

  • "Em profunda escuridão se procuraram, nus, sôfrego entrou nela, ela o recebeu ansiosa, depois a sofreguidão dela, a ânsia dele, enfim os corpos encontrados, os movimentos, a voz que vem do ser profundo, aquele que não tem voz, o grito nascido, prolongado, interrompido, o soluço seco, a lágrima inesperada, e a máquina a tremer, a vibrar, porventura não está já na terra, rasgou a cortina de silvas e enleios, pairou no alto da noite, entre as nuvens, pesa o corpo dele sobre o dela, e ambos pesam sobre a terra, afinal estão aqui, foram e voltaram."
  • "Quando Baltasar entra em casa, ouve o murmúrio que vem da cozinha, é a voz da mãe, a voz de Blimunda, ora uma, ora outra, mal se conhecem e tem tanto pra dizer, é a grande interminável conversa das mulheres, parece coisa nenhuma, isto pensam os homens, nem eles imaginam que esta conversa é que segura o mundo na sua órbita, não fosse falarem as mulheres umas com as outras, já os homens teriam perdido o sentido da casa e do planeta."
  • "Enferrujam- se os arames e os ferros, cobrem-se os panos de mofo, detrança-se o vime ressequido, obra que em meio ficou não precisa envelhecer para ser ruína."
  • "Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem um coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu"
  • "Talvez as lágrimas não sejam mais do que isso, o alívio de uma ofensa"
  • "Voando a máquina, todo o céu será música"
  • "Abençoem-se um ao outro, é quanto basta, pudessem todas as bênçãos como essa ser"
  • "Não há nada mais triste que uma ausência (...), só fica uma pungente melancolia, esta que faz (...) sentar ao cravo e tocar um pouco, quase nada, apenas passando os dedos pelas teclas como se estivessem olhando um rosto quando já as palavras foram ditas ou são de menos."

A Jangada de Pedra[editar]

  • "José Anaiço está ao lado de Joana Carda mas não lhe toca, compreende que não deve tocar-lhe, ela compreende-o também, há momentos em que mesmo o amor deve conformar-se com a sua insignificância, perdoai que assim reduzamos o extremo dos afetos a quase nada, ele que em outras ocasiões é quase tudo."
  • "Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores (...)"
  • "Basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias (...)"
  • "Chegaram a Lisboa ao cair da tarde, na hora em que a suavidade do céu infunde nas almas um doce pungimento."
  • "(...)os motivos, de que adianta falar de motivos, às vezes basta um só, outras vezes nem juntando todos, se as vidas de cada um de você não lhes ensinaram isto, coitados, e digo vidas, não vida, porque temos várias, felizmente vão se matando umas às outras, se não não poderíamos viver".
  • "(...)o fato de ter dito que não conhecia Lisboa, quando entrou lá, há dois meses, não depões contra a hipótese, pode simplesmente não ter a reconhecido, como não a reconheceriam hoje os fundadores fenícios, os povoadores romanos, os dominadores visigódicos, acaso com algum vislumbre os muçulmanos, e cada vez mais confusamente os portugueses."

As Intermitências da Morte[editar]

  • "As religiões, todas elas, por mais voltas que lhes dermos, não têm outra justificação para existir que não seja a morte, precisam dela como do pão para a boca." [...] "Tem razão, senhor filósofo, é para isso mesmo que nós existimos, para que as pessoas levem toda a vida com o medo pendurado ao pescoço e, chegada a sua hora, acolham a morte como uma libertação," [...] "Não foi o que nos habituaram a ouvir, Algo teríamos que dizer para tornar atractiva a mercadoria, Isso quer dizer que em realidade não acreditam na vida eterna, Fazemos de conta."
  • "Com as palavras todo cuidado é pouco, mudam de opinião como as pessoas." [...] "Porque as palavras, se não o sabe, movem-se muito, mudam de um dia para o outro, são instáveis como sombras, sombras elas mesmas, que tanto estão como deixaram de estar, bolas de sabão, conchas de que mal se sente a respiração, troncos cortados."
  • "Aí está uma palavra que soa bem, cheia de promessas e certezas, dizes metamorfose e segues adiante, parece que não vês que as palavras são rótulos que se pegam às cousas, não são as cousas, nunca saberá como são as cousas, nem sequer que nomes são na realidade os seus, porque os nomes que lhes deste não são mais que isso, os nomes que lhes deste,"
  • "A propósito, não resistiremos a recordar que a morte, por si mesma, sozinha, sem qualquer ajuda externa, sempre matou muito menos que o homem."
  • "A morte conhece tudo a nosso respeito, e talvez por isso seja triste."
  • "A prudência só serve para adiar o inevitável, mais cedo ou mais tarde acaba por se render."
  • "De Deus e da morte não se tem contado senão histórias, e esta é mais uma delas."

Todos os nomes[editar]

  • "O corpo que sonha é real, portanto, salvo opinião mais autorizada, também tem de ser real o sonho que ele estiver a sonhar."
  • "... como se o tempo houvesse encolhido todo, de trás para diante e de diante para trás, comprimido em um instante compacto..."
  • "O tempo pusera-se a contar os dias desde o princípio, agora usando a tábua de multiplicação para tirar o atraso. (...) O tempo, ainda que os relógios queiram convencer-nos do contrário, não é o mesmo para toda gente."
  • "O efeito da queda poderia ser acabar-se-lhe a vida, o que sem dúvida teria a sua importância de um ponto de vista estatístico e pessoal, mas que representa isso, perguntamos nós, se, sendo a vida biologicamente a mesma, quer dizer, o mesmo ser, as mesmas células, as mesmas feições, a mesma estatura, o mesmo modo aparente de olhar, ver e reparar, e sem que a estatística se tivesse podido aperceber da mudança, essa vida passou a ser outra vida, e outra pessoa essa pessoa."
  • "Em rigor, não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós"
  • "O acaso não escolhe, propõe"
  • "O que dá o verdadeiro sentido ao encontro é a busca e que é preciso andar muito para alcançar o que está perto."
  • "Para ela, vá lá entender a alma humana, o facto de não ver as paredes do cárcere, as próximas e as distantes, era o mesmo que se elas tivessem deixado de estar ali, era como se o espaço se tivesse alargado, livre, até ao infinito, como se as pedras não fossem mais do que o mineral inerte de que são feitas, como se a água fosse simplesmente a razão da lama, como se o sangue corresse só dentro das suas veias, e não fora delas."
  • "Homem, não tenhas medo, a escuridão em que estás metido aqui não é maior do que a que existe dentro do teu corpo, são duas escuridões separadas por uma pele, aposto que nunca tinhas pensado nisto, transpostas todo o tempo de um lado para outro uma escuridão (...), meu caro, tens de aprender a viver com a escuridão de fora como aprendeste a viver com a escuridão de dentro"
  • "O tempo psicológico não corresponde ao tempo matemático."
  • "... a efetiva impossibilidade de medir esse tempo a que chamamos de alma..."
  • "Não creio que haja maior respeito que chorar por alguém que não se conheceu."
  • "Aproximou-se duma sepultura e tomou a atitude de alguém que estivesse a meditar profundamente na irremissível precariedade da existência, na vacuidade de todos os sonhos e de todas as esperanças, na fragilidade absoluta das glórias mundanas e divinas."
  • "Apesar disso, o Sr. José entrou em casa molhado de cima a baixo. Despiu rapidamente a gabardine, mudou de calças, de peúgas e de sapatos, esfregou com uma toalha o cabelo que escorria, e enquanto fazia tudo isso prosseguiu no seu diálogo interior, É ela, Não é ela, Podia ser, Podia ser, mas não era, E se era, Sabê-lo-ás quando encontrares a do verbete, Se for ela, dir-lhe-ei que já nos conhecíamos, que nos vimos no autocarro, Não se lembrará, Se não demorar muito tempo a encontrá-la, lembra-se de certeza, Mas tu não queres encontrá-la em pouco tempo, talvez nem em muito, se realmente o quisesses teria ido procurar o nome à lista telefônica, é por aí que se começa, Não me lembrei, a lista está lá dentro, Não me apetece entrar agora na Conservatória, Tens medo do escuro, Não tenho medo nenhum, conheço aquela escuridão como a palma das minhas mãos, Diz-me antes que nem a palma das tuas mãos conheces, Se é isso que pensas, deixas-me ficar na minha ignorância, também os pássaros cantam e não sabem porquê".

O Conto da Ilha Desconhecida[editar]

  • "Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar."
  • "Quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou quando nela estiver."

A Viagem do Elefante[editar]

  • "uma vaca se perdeu nos campos com a sua cria de leite, e se viu rodeada de lobos durante doze dias e doze noites, e foi obrigada a defender-se e a defender o filho, uma longuíssima batalha, a agonia de viver no limiar da morte, um círculo de dentes, de goelas abertas, as arremetidas bruscas, as cornadas que não podiam falhar, de ter de lutar por si mesma e por um animalzinho que ainda não se podia valer, e também aqueles momentos em que o vitelo procurava as tetas da mãe, e sugava lentamente, enquanto os lobos se aproximavam, de espinhaço raso e orelhas aguçadas. Subhro respirou fundo e prosseguiu, ao fim dos doze dias a vaca foi encontrada e salva, mais o vitelo, e foram levados em triunfo para a aldeia, porém o conto não vai acabar aqui, continuou por mais dois dias, ao fim dos quais, porque se tinha tornado brava, porque aprendera a defender-se, porque ninguém podia já dominá-la ou sequer aproximar-se dela, a vaca foi morta, mataram-na, não os lobos que em doze dias vencera, mas os mesmos homens que a haviam salvo, talvez o próprio dono, incapaz de compreender que, tendo aprendido a lutar, aquele antes conformado e pacífico animal não poderia parar nunca mais. (...) o primeiro a falar foi o soldado que sabia muito de lobos, a tua história é bonita, disse (...), a vaca não poderia resistir a um ataque concertado de três ou quatro lobos, já não digo doze dias, mas uma única hora, Então, na história da vaca lutadora é tudo mentira, Não, mentira são só os exageros, os arrebiques de linguagem, as meias verdades que querem passar por verdades inteiras, Que crês tu então que se passou, (...), Creio que a vaca realmente se perdeu, que foi atacada por um lobo, que lutou com ele e o obrigou a fugir talvez mal ferido, e depois se deixou ficar por ali pastando e dando de mamar ao vitelo, até ser encontrada, E não pode ter sucedido que viesse outro lobo, Sim, mas isso já seria muito imaginar, para justificar a medalha ao valor e ao mérito um lobo já é bastante. A assistência aplaudiu pensando que, bem vistas as coisas, a vaca merecia a verdade tanto quanto a medalha."
  • "Como escreveu o poeta, os pinheiros bem acenam, mas o céu não lhes responde. Também não responde aos homens, apesar de estes, em sua maioria, saberem desde pequenos as orações precisas, o problema está em acertar com uma língua que deus seja capaz de entender."
  • "Têm razão os cépticos quando afirmam que a história da humanidade é uma interminável sucessão de ocasiões perdidas. Felizmente, graças à inesgotável generosidade da imaginação, cá vamos suprindo as faltas, preenchendo as lacunas o melhor que se pode, rompendo passagens em becos sem saída e que sem saída irão continuar, inventando chaves para abrir portas órfãs de fechadura ou que nunca a tiveram."

O Homem Duplicado[editar]

  • "Acordou uma hora depois. Não sonhara, nenhum horrível pesadelo lhe havia desordenado o cérebro, não esbracejou a defender-se do monstro gelatinoso que se lhe viera pegar à cara, abriu apenas os olhos e pensou, Há alguém em casa. Devagar, sem precipitação, sentou-se na cama e pôs-se à escuta. O quarto é interior, mesmo durante o dia não chegam aqui os rumores de fora, e a esta altura da noite, Que horas serão, o silêncio costuma ser total. E era total. Quem quer que fosse o intruso, não se movia de onde estava. Tertuliano Máximo Afonso estendeu o braço para a mesa-de-cabeceira e acendeu a luz. O relógio marcava quatro e um quarto. Como a maior parte da gente comum, este Tertuliano Máximo Afonso tem tanto de corajoso como de cobarde, não é um herói desses invencíveis de cinema, mas também não é nenhum cagarola, dos que se mijam pelas pernas abaixo quando ouvem ranger à meia-noite a porta da masmorra do castelo. É verdade que sentiu eriçaram-se-lhe os pêlos do corpo, mas isso até aos lobos sucede quando se enfrentam a um perigo, e a ninguém que esteja em seu juízo perfeito lhe passará pela cabeça sentenciar que os lupinos são uns miseráveis cobardes. Tertuliano Máximo Afonso vai demonstrar que também não o é."
  • "Às vezes pergunto-me se a primeira culpa do desastre a que este planeta chegou não terá sido nossa, disse, Nossa, de quem, minha, sua, perguntou Tertuliano Máximo Afonso, fazendo-se interessado, mas confiando que a conversa, mesmo com um início tão afastado das suas preocupações, acabasse por levá-los ao âmago do caso, Imagine um cesto de laranjas, disse o outro, imagine que uma delas, lá no fundo, começa a apodrecer, imagine que, uma após outra, vão todas apodrecendo, quem é que poderá, nessa altura, pergunto eu, dizer onde a podridão principiou, Essas laranjas a que está a referir-se são países, ou são pessoas, quis saber Tertuliano Máximo Afonso, Dentro de um país, são as pessoas, no mundo são os países, e como não há países sem pessoas, por elas é que o apodrecimento começa, inevitavelmente, E por que teríamos tido de ser nós, eu, você, os culpados, Alguém foi, Observo-lhe que não está a tomar em consideração o fator sociedade, A sociedade, meu querido amigo, tal como a humanidade, é uma abstracção, Como a matemática, Muito mais do que a matemática, ao pé delas a matemática é tão concreta como a madeira desta mesa".

Diálogos[editar]

  • "Perguntou-se a José Saramago:
– Como podem homens sem Deus serem bons?
Sua resposta foi:
– Como podem homens com Deus serem tão maus?"
  • "O senhor ainda sente necessidades de ajustar contas com Deus, mesmo acreditando que ele só existe na cabeça das pessoas?
Sua resposta foi:
– Deus não existe fora da cabeça das pessoas que nele creem."
- Entrevista a Ubiratan Brasil, em O Estado de S. Paulo em 17-10-2009

Política[editar]

  • Há uma tendência autoritária em muitos países. Nada restou dos ideais. A esquerda sofre uma espécie de tentação maligna que é a fragmentação. Não vejo nada mais estúpido do que a esquerda. Uns enfrentam os outros, por grupos, por partidos, por opções.
- 10.julho.2007, em Bogotá; Fonte: Globo Online - RJ (11/07/2007) [1]