Marguerite Yourcenar

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Marguerite Yourcenar, pseudônimo de Marguerite Cleenewerck de Crayencour (8 de junho de 1903, Bruxelas, Bélgica - 17 de dezembro de 1987, Mount Desert Island, Maine, EUA) foi uma escritora belga de língua francesa.


Obras[editar]

Memórias de Adriano[editar]

  • "A felicidade é uma obra-prima: o menor erro falseia-a, a menor hesitação altera-a, a menor falta de delicadeza desfeia-a, a menor palermice embrutece-a"
  • "O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos: minhas primeiras pátrias foram os livros. Em menor escala, as escolas". (Memórias de Adriano, Capítulo I)
  • "O que nos tranqüiliza no sono é a certeza de que dele retornamos. E ele nos cura temporariamente da fadiga pelo mais radical dos processos, isto é, arranjando para que cessemos de existir durante algumas horas".
- What reassures us about sleep is that we do come out of it, and come out of it unchanged, since some mysterious ban keeps us from bringing back with us in their true form even the remnants of our dreams. What also reassures us is that sleep heals us of fatigue, but heals us by the most radical of means in arranging that we cease temporarily to exist.
- Hadrian's memoirs - página 15, Marguerite Yourcenar - Doubleday, 1957 - 309 páginas

A Obra em Negro[editar]

  • "- Para eles, você não passa de um ateu.
- O que não é como eles parece-lhes contra eles - comentou amargamente Zenon."
  • "Mas não há ninguém tão tolo que não seja um pouco sábio."
  • "No recinto impregnado de vinagre em que dissecamos aquele morto, o qual não era mais o filho ou o amigo, mas apenas um belo exemplar da máquina humana, experimentei pela primeira vez a sensação de que a mecânica, de um lado, e a Grande Arte, de outro, tratam apenas de aplicar ao estudo do universo as verdades que nos ensinam nossos corpos, nos quais se repete a estrutura do Todo. Não seria bastante toda uma vida para cotejar um com o outro este mundo em que estamos e este mundo que somos. Os pulmões eram o fole que reanima a brasa; o pênis, uma arma de arremesso; o sangue nos meandros do corpo era a água circulante das canaletas de um jardim oriental; o coração, conforme se adotasse esta ou aquela teoria, era a bomba ou o braseiro; o cérebro, o alambique em que se destila uma alma..."
  • "Este corpo, nosso reino, parece-me às vezes composto de um tecido grouxo e tão fugidio quanto uma sombra."
  • "Matei alguns de meus pacientes por um excesso de audácia que curou outros. Uma recaída ou uma melhora importavam-me sobretudo enquanto uma confirmação de um prognóstico ou prova da eficácia de um método terapêutico. Ciência e contemplação não são em absoluto suficientes, irmão Henrique, se não se transmudam em poder: o povo tem razão quando vê em nós os adeptos de uma magia branca ou negra. Fazer durar o que passa, adiantar ou atrasar a hora prescrita, apoderar-se dos segredos da morte para lutar contra ela, servi-se de fórmulas naturais para ajudar ou frustrar a natureza, dominar o mundo e o homem, fazê-los, talvez criá-los..."

Denário do Sonho[editar]

  • "Paolo Farina era um tabelião ainda jovem, bastante rico e tão honesto quanto se pode esperar de um homem que vive na intimidade da Lei."
  • “O amor não se compra: as mulheres que se vendem apenas se alugam aos homens; mas compra-se o sonho – substância impalpável que se transaciona sob várias formas.”
  • “Giulio iludira-se na esperança de que as manias da mulher se fossem atenuando com a idade; envelhecendo, os defeitos de Giuseppa, ao contrário, haviam crescido monstruosamente como os seus braços e a cintura; sob a garantia de trinta anos de intimidade conjugal, ela não os dissimulava mais do que as imperfeições físicas.”
  • “Começara por nutrir relativamente a Carlo este sentimento de que somos mais ricos, a indiferença, pois que o devotamos a cerca de dois bilhões de seres humanos.”
  • “O caráter de Giuseppa pioraria com a idade e a intensidade do seu reumatismo: nem a própria Virgem conseguiria mudar a natureza de uma mulher de sessenta anos. Vanna continuaria a levar aquela vida solitária para a qual não fora feita, e a entregar-se às tentações do desespero. Talvez arranjasse um amante; nesse caso, haveria de sofrer mais do que sofrera até agora, porque a vergonha se juntaria a seus males.”

Golpe de Misericórdia[editar]

  • “Eram cinco da manhã, chovia, e Eric von Lhomon, ferido em Saragoça, tratado a bordo de um navio-hospital italiano, esperava no café da estação de Pisa o trem que o levaria de volta à Alemanha.”
  • “Quem pretende se lembrar de uma conversa palavra por palavra não passa para mim de um mentiroso ou de um mitômano. De minha parte, só retenho fragmentos, um texto cheio de lacunas, como um documento roído pelos vermes. Não ouço minhas próprias palavras, mesmo no instante em que as pronuncio. As do outro me escapam, e não me lembro senão de um movimento de lábios à altura dos meus. O resto não passa de uma reconstituição arbitrária e falseada, e isso vale igualmente para outras conversas de que tenho aqui me recordar.”
  • “Minha estima por Conrad diminuiu com isso, até o dia que compreendi que fazer de Sofia uma Mata Hari de filme ou de romance popular era talvez para meu amigo uma maneira ingênua de glorificar a irmã, de emprestar ao seu rotos de grandes olhos vivos a beleza comovente que sua cegueira de irmão não lhe permitira reconhecer até então.”

Atribuídas[editar]

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  • "Debitada em fatias cuidadosamente embaladas em papel celofane num supermercado, ou conservada em lata, a carne do animal deixa de ser sentida como tendo sido viva. Atrevemo-nos a dizer que os nossos talhos, donde pendem nuns ganchos animais que ainda á pouco sangravam – e de tal modo atrozes para quem não está habituado a eles que alguns dos meus amigos estrangeiros mudam de passeio, em Paris, ao vê-los de longe -, talvez sejam um bem, enquanto testemunhos visáveis da violência feita pelo homem ao animal".
  • "A condição das mulheres é determinada por estranhos costumes: elas são ao mesmo tempo dominadas e protegidas, fracas e poderosas, excessivamente desprezadas e excessivamente respeitadas".
  • "A liberdade das mulheres de hoje, maior ou pelo menos mais visível do que a dos tempos antigos, não passa de um dos aspectos da vida mais fácil das épocas prósperas; os princípios e mesmo os preconceitos não foram seriamente atingidos".
  • "Adaptar-me-ia dificilmente a um mundo sem livros, mas a realidade não está ali porque eles não a contêm toda inteira".
  • "Desprezar as alegrias do povo é insultá-lo".
- C'est avoir tort que d'avoir raison trop tôt.
- Mémoires d'Hadrien‎ - Página 88, Marguerite Yourcenar - Plon, 1956 - 319 páginas
  • "Julgamo-nos puros enquanto desprezamos o que não desejamos".
  • "Não estou certo de que a descoberta do amor seja necessariamente mais deliciosa do que a da poesia".
  • "No conjunto, é somente por orgulho, por ignorância grosseira, por covardia, que nos recusamos a ver, no presente, lineamentos das épocas que virão".
  • "O homem mais tenebroso tem seus momentos iluminados: tal assassino toca flauta; tal feitor é talvez um bom filho. Existem poucos a quem não se possa ensinar alguma coisa. O erro é tentar encontrar neles virtudes que não têm, neglicenciando as que possui".
  • "O que nos tranqüiliza no sono é a certeza de que dele retornamos. E ele nos cura temporariamente da fadiga pelo mais radical dos processos, isto é, arranjando para que cessemos de existir durante algumas horas".
  • "O triunfo não assenta senão aos mortos. Aos vivos, há sempre alguém para censurar-lhes as fraquezas".
  • "Quanto amargor fermenta-se no fundo da doçura, quanto desespero esconde-se na abnegação e quanto ódio mistura-se ao amor".
  • "Tentemos, se pudermos, penetrar na morte de olhos abertos".
  • "Todo livro reeditado deve alguma coisa às pessoas honestas que o leram".
  • "Todo prazer sentido com gosto parece-me casto".