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Curupira

Origem: Wikiquote, a coletânea de citações livre.
Representação artística do curupira

O Curupira é uma entidade do folclore brasileiro, originária da mitologia indígena tupi-guarani. Protetor das florestas e dos animais, é classicamente descrito como tendo cabelos vermelhos e com os pés virados para trás, perseguindo e confundindo aqueles que caçam por prazer ou devastam a natureza.



  • "É cousa sabida e pela bôca de todos corre que ha certos demonios, a que os Brasis chamam corupira, que acometem aos Indios muitas vezes no mato, dão-lhes de açoites, machucam-os e matam-os. São testemunhas disto os nossos Irmãos, que viram algumas vezes os mortos por eles. Por isso, costumam os Indios deixar em certo caminho, que por asperas brenhas vai ter ao interior das terras, no cume da mais alta montanha, quando por cá passam, penas de aves, abanadores, flechas e outras cousas semelhantes como uma especie de oblação, rogando fervorosamente aos curupiras que não lhes façam mal."
José de Anchieta, Carta de São Vicente, 1560.
  • "Eles temem fortemente os Espíritos malignos, que eles nomeiam Curupira, Taguai, Machachera, Anhanga, Inrupari, Marangigama: mas estes nomes têm diversas significações; pois Curupira significa o Demónio das montanhas, Machachera, o Demónio dos caminhos, Inrupari & Anhanga, o Diabo simplesmente, Marangigama, não denota um Demónio, mas a alma separada do corpo, ou qualquer outra coisa pressagiando a morte, pois os Brasileiros não sabem exprimir isso nem a si mesmos, e não obstante temem-nos sobre tudo; de sorte que por vezes morrem subitamente por um medo imaginado e vão deles, todavia não os servem por quaisquer cerimónias ou ídolos: alguns deles tentam por vezes apaziguá-los plantando um pau na terra e pondo junto alguns presentes: estes Espíritos aparecem raramente visivelmente entre eles, embora vários tenham escrito de outro modo."
João de Laet, L'histoire du nouveau monde ou Description des Indes Occidentales, 1640.
  • "Crêem que há uns espíritos malignos, de que têm grandíssimo medo: a estes chamam por vários nomes: Curupira, aos espíritos dos pensamentos; Macachéra, aos espíritos dos caminhos; Jurupari, ou Anhanga, aos espíritos que chamam maus, ou diabos; Maraguigana, aos espíritos, ou almas separadas, que denunciam morte; a quem dão tanto crédito, que basta só o imaginarem que têm algum recado deste espírito agoureiro, para que logo se entreguem à morte, & com efeito morram sem remédio. A estes fazem certas cerimônias, não como a deuses, senão como a mensageiros da morte; oferecendo-lhes presentes com certos pauzinhos metidos na terra; & têm para si que com estes se aplacam."
- Simão de Vasconcelos, Chronica da Companhia de Jesus do Estado do Brazil e do que obraram seus filhos nesta parte do novo mundo, 1663.
  • "Curupira, — espírito mau, que habita nas florestas. É a definição de Gonçalves Dias, no seu Dicionário da língua Tupy; em nenhum outro encontrei o nome nem coisa que com ele se parecesse. Para satisfazer o leitor curioso direi agora o que é a Curupira, segundo as crendices dos tapuios, e até mesmo segundo as crenças de muitas famílias brancas. A Curupira é o espírito, o gênio, a mãe, o Deus, ou diabo, que habita nos bosques, assim como a Iara é a Deusa das águas. Descrevem-n’a os indígenas, como se a tivessem visto e conhecido perfeitamente, na figura de um rapaz ou rapariga tapuia, vestido ao estilo do Paraíso terreal, como é de razão que se ande por aqueles sertões, e passando a vida a desencaminhar os mortais que se aventuram a penetrar nas florestas. É sobretudo nas matas virgens que se corre risco de encontrar a Curupira, ou o Curupira conforme lhe apraz mostrar-se — macho ou fêmea."
Francisco Gomes de Amorim, Ódio de Raça, 1854.
  • "Curupiras são os espíritos dos pensamentos, segundo Simão de Vasconcellos. Mas no Dicionário Portuguez e Brasiliano publicado em Lisboa vejo Juruçarí corresponder à palavra diabo, e Curupira a demônio que aparece no mato. Sendo pois certo que os Índios acreditam na existência de uns espíritos que aparecem nos bosques, inclino-me a crer serem estes os denominados Juruparis, e não Curupiras, sendo estes últimos os espíritos que presidem aos pensamentos, como diz o citado cronista Vasconcellos."
Domingos José de Magalhães, A Confederação dos Tamoyos: Poema, 1856.
  • "Para os nativos, é sempre o Curupira, o homem selvagem ou espírito da floresta, que produz todos os ruídos que eles são incapazes de explicar. Os mitos são as teorias rudimentares que a humanidade, na infância do conhecimento, inventa para explicar os fenômenos naturais. O Curupira é um ser misterioso, cujos atributos são incertos, pois variam de acordo com a localidade. Às vezes ele é descrito como uma espécie de orangotango, sendo coberto por longos cabelos desgrenhados e vivendo em árvores. Em outras, dizem que ele tem pés bifurcados e um rosto vermelho vivo. Ele tem uma esposa e filhos, e às vezes desce para as roças para roubar a mandioca. Certa vez, eu tinha um jovem mameluco a meu serviço, cuja cabeça estava cheia das lendas e superstições do país. Ele sempre ia comigo para a floresta; na verdade, eu não conseguia fazê-lo ir sozinho, e sempre que ouvíamos algum dos estranhos ruídos mencionados acima, ele tremia de medo. Ele se agachava atrás de mim e implorava para que voltássemos; só ficava tranquilo depois de fazer um encanto para nos proteger do Curupira. Para este fim, ele pegava uma folha de palmeira jovem, entrelaçava-a e a transformava em um anel, que pendurava em um galho em nosso caminho."
Henry Walter Bates, The Naturalist on the River Amazons, 1863.
  • "De súbito sai-lhe a vara de porcos do mato ao encontro guiada pelo curupira. O curupira é caboclo e pequeno e vem montado no queixada-mor; mastiga o rolo de petum e maneja com a mão esquerda a seta emplumada; tem os calcanhares para a frente e os dedos dos pés para trás; quando se o julga a caminhar para longe, ele está perto; traz na cabeça a pena verde da jandaia e na cintura um fraldão de sumaúma. Os porcos são bravios e assustam com o bater dos navalhados dentes; atacam de pressa e despedaçam o que encontram; à voz do curupira obedecem mansamente e param ao menor aceno do chefe, que os dirige. Salva-te, caçador, em quanto é tempo; se a vara de porcos chega a cercar-te, não tens esperança alguma de fuga. Meteu-se o caçador ao mato e deixou que passasse a vara, mas, o curupira já o tinha visto e pediu-lhe o tributo do petum. Obteve que o caçador vinha dele provido. Os porcos acercaram-se e estenderam a linha em forma de círculo. O caçador subiu a gameleira e viu os queixadas em baixo. À voz do chefe arredaram-se estes e em breve desapareceram."
Flávio Reimar, Entre o Céu e a Terra, 1869.
  • "O Curupira é o deus que protege as florestas. As tradições representam-n'o como um pequeno Tapuio, com os pés voltados para trás, e sem os orifícios necessários para as secreções indispensáveis à vida, pelo que a gente do Pará diz, que ele é máscico. O Curupira ou Currupira, como nós o chamamos no sul, figura em uma infinidade de lendas, tanto no norte como no sul do Império. No Pará, quando se viaja pelos rios e ouve-se alguma pancada longínqua no meio dos bosques, os remeiros dizem que é Curupira que está batendo nas sapupemas, a ver se as árvores estão suficientemente fortes para sofrerem a ação de alguma tempestade que está próxima. A função do Curupira é proteger as florestas. Todo aquele que derriba, ou por qualquer modo estraga inutilmente as árvores, é punido por ele com a pena de errar tempos imensos pelos bosques, sem poder atinar com o caminho da casa, ou meio algum de chegar entre os seus."
José Vieira Couto de Magalhães, Região e Raças Selvagens, Revista do Instituto Histórico, Geográfico e Ethnográfico do Brazil, 1873.
  • "A floresta tinha ainda um outro espírito, o Curupira, pequeno tapuio de pés virados para trás, sem orifícios para as secreções indispensáveis à vida, que castigava os que estragavam inutilmente as arvores, fazendo-os errar pelos matos, sem atinar com o caminho da casa. Segundo Anchieta, este nome era geralmente dado aos espectros nocturnos ou antes demonios. Elles, refere o mesmo Padre, atacavam muitas vezes os índios no mato, batiam-lhes, maltratavam-nos e matavam-nos. Para livral-os dos seus sortilegios costumavam os selvagens deixar nos invios caminhos que percorriam, pennas de passaros, abanadores, flexas, á guisa de oblação propiciatoria. Esta crença existe ainda viva no Pará e Amazonas, entre as raças oriundas da indígena, ao lado da crença catholica. Não ha muito tempo que um amigo nosso, moço branco e intelligente, mas que esteve na infância em contacto com fâmulos mamelucos, nos contou o seguinte: estando em um seringal a passeio, saiu um dia á caça, e perdeu-se ou julgou-se perdido na floresta cortada por um verdadeiro labyrinto d’essas estreitas picadas chamadas estradas de seringa, que mais o confundiam do que auxiliavam. Por fim fazia-se tarde, a fadiga prostrou-lhe o physico e atacou-lhe o espírito, e elle não se pôde furtar a uma impressão de medo, logo acompanhada pela reminiscencia das historias do Curupira, a ponto que, quasi sem consciencia do que fazia, fabricou uma cruz com dois galhitos de matto e collocou-a no chão como um esconjuro ao demônio tupy. Parece que lhe valeu, porque o nosso amigo ganhou com pouco a barraca onde se alojava."
José Veríssimo, A Religião dos Tupy-Guaranys, 1881.
  • "As maravilhosas lendas do Curupira e da mãe-d'água encantam sua necessidade de sonho e lhes dão emoções poéticas. Elas são como as vozes dos dois grandes gênios que se escondem nas coisas amazônicas: o gênio das florestas e o gênio das águas. Elas traduzem a impressão que a imensa natureza deposita no fundo dessas almas melancólicas. O Curupira é um gênio selvagem que assombra as solidões arborizadas. Quando as mulheres se perdem na floresta, ele sai das árvores sob a figura de um Índio. Quando os homens se perdem na floresta sem fim, ele se mostra sob a forma de uma bela Indígena. Não se deve seguir o Curupira. Aqueles que conhecem a malícia do Curupira o distraem pelo caminho. Eles descansam à sombra, e começam a trançar pequenos cestos de cipós ou de talos de guarumá. O Curupira vem. Ele pega os pequenos cestos, os examina, e, para aprender a fazer outros tão belos, começa por colocá-los em pedaços, como faria um gentil sagui com um enfeite de rendas. Durante esse tempo, escapa-se, e reencontram-se as trilhas."
Frederico José de Santa-Anna Nery, Le pays des Amazones: l'El-Dorado, les terres à caoutchouc, 1885.
  • "Existem Curupiras de ambos os sexos, os quais habitam nos buracos dos paus podres e aparecem de repente ao caçador ou viajante, confundem-no e procuram transviá-lo afim de que ele morra. Têm a forma de tapuias, sendo a fêmea mais gorda e tendo os cabelos mais compridos; seus dentes são verdes. Às vezes o curupira tem mulher e filhos. Segundo Baena o curupira é um tapuio pequeno, com os pés às avessas, que persegue o caçador, o qual, para afugentá-lo, tece cruzes e rodinhas de cipó e as deixa no caminho; o curupira entretém-se a destrançar estas rodinhas ou cruzes e enquanto isto dura o caçador ganha terreno. O curupira não é propriamente um espírito; tem carne e osso e pode ser morto por um homem. O curupira é especialmente um maléfico, e ao mesmo tempo zombeteiro. O mito do curupira divulgava-se outrora por todas as tribos brasileiras, tupis ou não tupis; não menos acreditado era nas superstições dos sertanejos do mato."
Viriato Padilha, Curso de História do Brasil, vol. 1, 1898.
  • "O Curupira é talvez o mais antigo dos mitos brasileiros; já dele falava Anchieta em 1560. É o numen mentium, o gênio dos pensamentos. É habitante das florestas; extravia os caminhantes, arrasta-os, e suga o seu sangue; é um tapuio pequeno; de dentes verdes; tem os pés às avessas, com as pontas viradas para trás; às vezes nu, outras vezes vestido de tanga, com um cocar de plumas. A sua mulher é a Caíçara, cabocla anã, quase negra, que chicoteia animais e homens com cipós de japecanga. Companheiro do Curupira, ou sua duplicata, é o Caipora, ora gigante, ora anão, montado num caitetu, cavalgando à frente de varas de porcos do mato, fumando cigarro ou cachimbo, pedindo fogo aos viajantes; e, precedendo-o, voam os vagalumes, seus batedores, alumiando o caminho. É ele o gênio do azar, do mau olhado, da falta de sorte; é do seu nome que se originou o nosso vocábulo “caiporismo”. Outro..."
Olavo Bilac, Sobre algumas lendas do Brasil, Revista do Brasil, 1917.

Ver também

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