Água funda
Aparência
| Água Funda |
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Água Funda é um romance da escritora brasileira Ruth Guimarães. O livro acompanha uma fazenda localizada entre os estados de Minas Gerais e São Paulo ao longo da transição entre os séculos XIX e XX.
- Estas coisas aconteceram em qualquer tempo e em qualquer parte. O certo é que aconteceram. E, como sempre se dá, ninguém aprendeu nada do seu misterioso sentido. (Epígrafe)
- O céu que Sinhazinha saiu para procurar, depois, podia ser que fosse um céu de fundo d'água. O que é e o que não é, não se pode saber antes do tempo. Tudo que a gente pensa que é céu, é céu mesmo. Até o dia em que pensa que é lodo de ribeirão e mais nada.
- Veio um alemão com cabelo feito cabelo de milho, vermelho e espetado. Desse também ninguém gostava. Olhava enviesado e falava de cima, soberbo:
- — Fossês, brrasileirras, non serrfem parra trrabalharrr.
- — Quem é que serve, alemão dos quintos?
- Ninguém faça que não pague. Esta é a primeira lei da vida. A gente só colhe o que semeia. Às vezes, no meio das plantas, vem o mato. Mas quem joga semente de capim catingueiro no chão, não espere achar mais do que capim catingueiro.
- Tudo ficou como dantes. Foi o mesmo que Sinhá nunca tivesse existido. A gente passa nessa vida, como canoa em água funda. Passa. A água bole um pouco. E depois não fica mais nada.
- E quando alguém mexe com varejão no lodo e turva a correnteza, isso também não tem importância.
- Água vem, água vai, fica tudo no mesmo outra vez.
- Não é dizer que seja bonita de admirar. Nem é boniteza. É uma coisa que puxa os olhos da gente, que arrepia, que enleia, que aquece, e que umas mulheres têm e outras não têm.
- Não está nos olhos, não está nas curvas, não está nela e não está em nós. É como o calor, mas um calor que vem dela e ela não sente, e toma conta do sentido de quem olha e de quem está perto. Já teve sangue novo? Isto de que estou falando é como sangue novo.
- Ninguém daqui conhece o mar, fora o Vicente Rosa.
- "Eu mesmo vi o mar uma só vez. Foi quando me botei atrás de tropa, correndo mundo. Atravessei essas serras brutas e fui dar em Campos Novos da Cunha. Na volta, passei em Caraguatatuba e vi o mar. Achei tão bonito, tão grande, tão... — como é que eu digo, meu Deus? — ... tão diferente e tão maior do que tudo quanto já vi, que penso: morrer, ir para o céu, olhar para Deus, é a mesma coisa. Senti como se tivessem chegado perto de mim e apagado, com um pano molhado, tudo quanto sei e quanto sou..."
- Pois o mar, que é o mar, tem maré, por causa da lua! Foi o Dr. Amadeu quem disse. Como é que a lua, tão fria, e tão longe, tão de longe, puxa o mar?
- Curiango é também como o tempo, quando está para chover, e é como a lua.
- Choquinha é Sinhá? Não é. Sinhá era a outra. Choquinha FOI Sinhá.
- Passarinho preso canta alegre e sabe Deus o que o coitadinho sente. E mesmo que ela não sinta nada, que é que tem isso? A vida é assim mesmo, moço. Rolinha juriti, que perde o companheiro, geme ao cair da noite. Mas, por fim, arranja outro companheiro. Mal da gente, se não fosse o esquecimento.