Elis Regina

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Elis Regina Carvalho Costa (17 de março de 1945, Porto Alegre, Brasil - 19 de janeiro de 1982) foi uma das intérpretes brasileiras mais populares entre 1960 e 1970.


  • "A música é meu arco, minha flecha, meu motor, meu combustível e minha solidão. Amigo, cantar é um ato que se comete absolutamente só e eu adoro."
- Frase citada no "Elis Especial" gravado na "Sexta-feira Nobre", um programa da Rede Globo de Televisão.
  • "Importante é recuperar o ser para o próprio ser, na procura da melhoria da qualidade de vida."
- Bilhete de Elis para Max Pierre
  • "Aprendi que a vida é feita de dois lados. Você precisa conhecer o lado torto para conhecer o lado bonito. Então, nesse sentido, todas as experiências pelas quais nós passamos são absolutamente válidas."
- Para O Globo em 1976
  • ``Gosto muito da Simone. Potencialmente, vê-se nela a possibilidade de um desabrochar grande. É uma mulher bonita, seu repertório é muito bom e está muito bem assessorada pelo Flávio Rangel e pelo Nélson Ayres´´.
- Elis Regina, O Pasquim, 1980
  • "Amo a musica, acredito na melhoria do planeta, confio em que nem tudo está perdido, creio na bondade do ser humano e intuo que a loucura é fundamental. Agora só me faltam carneiros e cabras pastando solenes no meu jardim. Viver é ótimo."
- Citando "Casa no Campo", uma música de Zé Rodrix e Tavito que faz parte do seu repertório
  • "Essas mulheres todas, com exceção da Ângela Rô Rô, estão servindo a este sistema feudal das gravadoras, fazendo o que um amigo meu chama de neo-pseudo-erotismo".
- Fonte: http://www.angelaroro.com.br/biografia.htm

Atribuídas[editar]

[carece de fontes?]
  • "Neste país só duas cantam: Gal e eu".
  • "Quando pensam que eu estou verde, eu já estou madura. Sou a Elis Regina Carvalho Costa que poucos vão morrer conhecendo."
  • "Entre a parede e a espada, me atiro contra a espada."
  • "Cantar, para mim, é sacerdócio. O resto é o resto".
  • "Afinal, se a gente não se divertir o que é que a gente vai fazer."
  • "A longevidade do disco é uma coisa que pode servir de testemunha de defesa, como também pode lascar uma condenação histórica."
  • "Por isso é que as pessoas acham que eu sou antipática, porque eu não encaro, mas não é não, bicho. É que eu sou vesga mesmo. Aí eu saco que nêgo vai sacar que eu estou vesga. Morro de vergonha e fico disfarçando."
  • "A lucidez me leva às raias da loucura."
  • "Eu fiz vários shows, vários discos e vários filhos."
  • "Tenho o prazer de me danar e me recompor sozinha, não preciso de muletas."
  • "Quero ter vida privada e não privada na vida."
  • "Sou músico sim, meu instrumento é a voz aliado à palavra. Não aceito discriminação"
  • "Sim."
- Em resposta a Miele quando este perguntou: "Quem você pensa que é, Barbra Streisand?"
  • "Assim que quanto mais honesto, mais sincero e mais preciso você for em relação ao seu público, evidentemente maior receptividade você acolherá da parte dele. Não importa nem o que você esteja fazendo, eu acho que acima de qualquer coisa é importante que você seja de verdade, que você olhe para os caras de frente, dentro do olho deles, e que eles sintam que você a deles e que afim de que estejam na sua."
- Após um show, em entrevista a um repórter, sobre porque seus shows faziam tanto sucesso, mesmo após vários anos de carreira
  • "Eu quero que ela tenha tenha uma vida legal, mas o que é legal para mim, pode não ser legal para ela."
- Sobre Maria Rita
  • "Quero que ela seja leve."
- Sobre Maria Rita
  • "Gosto de você pra caralho. Quero você pra caralho. Caguei pro mundo."
- Em um bilhete para César Camargo Mariano, seu segundo marido, pouco tempo após se conhecerem.
  • "O único lugar do mundo em que eu já ouvi ser um demérito ser afinada, ter noção de colocação de voz, de divisão ritmica, é o Brasil. Em todos os lugares do mundo, quando isso acontece não há nenhum problema. Inclusive poque isso não é merito meu. Já vim de fábrica com o ouvido acertado. Seu Romeu e Dona Ercy estavão com o diapasão afinado. Tudo certo."
- Comentando sobre sua capacidade vocal, cita os nomes de Romeu e Ercy, seus pais.
- Ao saber que o show Trem Azul havia ganho da crítica Paulista o título de melhor show do ano de 1981.
  • "Não passo o dia olhando pro meu umbigo para ver se nasce um pé de couve."
  • "Por que exigem de mim tanta coisa? Sou boa cantora e ainda tenho de ser educada?"
  • "O circo não deixa de ser uma casa brasileira, ?"
  • "Eu vi a Rita Lee lamber o microfone. Passei anos da minha vida com vontade de fazer isso e com medo de ser eletrocutada"
  • "A vida vai bem, obrigada. E, mesmo que não fosse muito bem, quando a gente está com um escore mais ou menos 95 a 5, a gente não pode se queixar. Filhos simpáticos, marido bonito, conjunto maravilhoso, teatro lotado, cabelo novo, dente obturado, a cuca tratada, roupinha nova no guarda-roupa, os amigos frequentando a casa, aquelas coisas. Se queixar é querer demais. Então está tudo como o diabo gosta."
- Sobre seu Show "Falso Brilhante" em um especial para a Rede Bandeirantes em 1976
  • "A cada dia que passa as pessoas boas ficam mais escassas"
  • "Eu dou o tiro, quem mata é Deus".
  • "E eu não aí para morrer atropelada por um carro qualquer, numa noite qualquer, numa viela escura de São Paulo. Por favor, tenho três filhos para criar. Joana D'Arc, meu amor? Até a hora de ir pra fogueira. E para a fogueira eu não vou, malandro. Queima, dói."
  • "Ninguém pode começar nada partindo da premissa de que vai derrubar outra. Você tem de começar pela necessidade de fazer, porque você quer fazer, e não para derrubar ninguém. Até porque há lugar para todo mundo."
  • "Quero sofrer tudo até a última gota. Quero tudo a que tenho direito - as coisas boas e ruins - e não pretendo deixar nada pra ninguem!"
- Ao Jornal do Brasil em 1976
  • "Eu sou do contra. Não vão me dirigir não. Decifra-me ou devoro-te? Não vai me devorar nem eu me decifrar, nunca. Eu sou a esfinge, e daí?"
- Em entrevista à Revista Veja, em outubro de 1978, quando perguntada sobre seu temperamento considerado difícil
  • "Ele vendia coisas; sabonete, pasta de dente... aquelas coisas que são tão necessárias ao bem comum."
- Elis Regina sobre Gilberto Gil.
  • "Se Deus cantasse ele cantaria com a voz de Milton".
- Sobre Milton Nascimento
  • "É melhor andar só, do que ter testemunhas de acusação."
  • "Eu não tenho saco para essas coisas. Com 36, cansada, três filhos para sustentar e vem nêgo falar besteira. Em 81, ao preço que está a gasolina, xará. Eu, hein!"
- Em um desabafo para a TV Gaúcha.

Sobre[editar]

  • "Eu vi Elis pela primeira vez em 1964, nem eu e nem ela éramos famosos. Foi no Rio de Janeiro, no lançamento do disco de uma cantora chamada Luiza, foi uma festa que essa cantora deu para comemorar esse lançamento. Eu já sabia quem era Elis e acabei fazendo uma brincadeira com ela, que ela detestou. Eu conhecia um rock que ela tinha gravado no primeiro disco dela, chamado Dá Sorte. Eu cantei a música e ela mandou eu calar a boca.
Só fui voltar a encontrar com ela no Festival Berimbau de Ouro, em São Paulo. Eu iria me apresentar e ela fazer o show de encerramento. Eu cruzei com ela no corredor e eu, meio tímido, abaixei a cabeça. Depois que eu passei eu ouvi um barulho de tamanco batendo no chão e ela falou Mineiro não tem educação, não?... Quando a gente encontra um pessoa de manhã, damos bom dia, quando encontramos uma pessoa de tarde, damos boa tarde e quando encontramos uma pessoa de noite, damos boa noite. Eu disse É que eu não queria te encher, ser mais um a fazer isso e ela retrucou Não tem desculpa!. E no dia que havíamos nos encontrado na casa da Luzia, eu e o Wagner Tizo havíamos tocado uma música nossa e nesse encontro do corredor ela disse que eu para eu ir na casa dela mostrar essa música para ela. E para minha surpresa, ela começou a cantar a tal música... eu olhei surpreso para ela que, pondo a mão na testa, disse Memória, meu caro!.
Fui na casa dela e Gilberto Gil estava lá, ajudando ela a selecionar músicas. Eu cantei um monte de músicas. Foram umas vinte e tantas e quando eu parei ela perguntou se eu não tinha mais nenhuma. Eu só tinha mais uma, a Canção do Sal. Assim que eu cantei ela disse É essa!
Depois fui me apresentar no programa dela, o Fino da Bossa. Ela havia gravado a Canção do Sal e queria que eu fosse ao programa cantar com ela, mas o pessoal do programa não queria deixar. Eu não era conhecido, só Elis me conhecia, mas ela arrumou uma briga, disse que se eu não cantasse ela não faria o programa, e eu acabei me apresentando. Foi a primeira e última vez que me apresentei no Fino. Mas eu sempre estava na platéia assistindo ao programa. Num certo dia, Elis terminou o programa e me disse O que você vai fazer no Natal?. Eu respondia que ia para Três Pontas, passar com minha família. Ela disse Não, você vai para o Rio de Janeiro, passar comigo e com minha família. Eu tentei argumentar, disse que não tinha dinheiro, mas ela decretou Fica quieto, você vai e acabou. Isso porque a gente nem se conhecia direito.
Fui passar o Natal com a Elis e depois da ceia, da troca de presentes ela sentou-se numa cadeira e começou a chorar, dizendo que se sentia muito sozinha em São Paulo, que era muito nova e que não estava feliz. E disso eu entendia, porque eu também não estava bem em São Paulo. Vendo ela chorar eu pensei que para ela estar fazendo aquilo na minha frente, só poderia ter um motivo. Iria nascer uma grande amizade. E foi o que aconteceu.
Mais do que qualquer coisa, Elis era um mito para mim. Quando a ouvi pela primeira vez cantando minha música, a voz dela entrou dentro de mim, do meu coração, do meu sangue. Ela, inclusive, em um programa de TV, reclama que eu não falei nada sobre a gravação, mas eu nem tinha como falar. Eu até chamei ela para tomar alguma coisa num boteco, mas ela disse que não era pessoa de tomar coisa em boteco e então acabei nem falando para ela se eu tinha gostado ou não. Mas para mim, para meus amigos, para minha família foi uma festa.
Todas as mulheres da minha vida são ciumentas, menos Elis, porque ela tinha certeza que o lugar dela estava certo e que ninguém iria mexer. Depois que eu a conheci, todas as minhas músicas foram feitas para Elis e ela sabia disso, portanto não sentia ciúmes. Mas quando eu fazia uma música e dava para Elis gravar, eu causava um reboliço, todas as outras cantoras ficavam com ciúmes.
Todas as músicas foram feitas para Elis, mas o que aconteceu com Saudades do Avião da Panair (Conversando no Bar) e Ponta de Areia foi muito interessante. Eu morava sozinho e dentro do meu apartamento só tinha um colchão e um piano, então era ótimo para ficar tocando violão. Em uma manhã saiu a Saudades..., pensando na Elis, e eu não acreditava que havia feito essa música. Fiquei das 10 horas da manhã até umas 3 da tarde tocando essa música, estava ficando louco. Fui para o piano, sentei e saiu, na mesma hora, Ponta de Areia. Logo avisei Elis que as duas eram dela. Fui para Nova York e o Fernando Brant ficou de colocar as letras. Gravei e mandei para ela.
Elis e Nana Caymmi são as minhas melhores intérpretes, mas Elis tem algo especial, quando ela cantava tinha algo muito além da música, tinha toda nossa amizade. Eu fui uma das poucas pessoas, ou talvez a única, que ela nunca brigou. Quando ela estava perto de mim, sempre me surpreendia. Uma vez fomos jantar e um cara que estava conosco começou a falar mal da cantora Simone, pensando que estava agradando a Elis. Quando ele terminou de falar, a Elis deu um baita esporro nele, dizendo que a Simone estava trabalhando e que ele estava falando um monte de bobagens, que era para ele ficar quieto... Nunca pensei que Elis fosse tomar partido de uma outra cantora do jeito que ela fez.
Um pouco antes dela morrer, eu estava morando em Belo Horizonte e a Elis não conseguia entender o que eu estava fazendo lá. Ela me ligou e disse que a partir daquele momento ela só queria trabalhar com mineiro e que estava pegando um avião para ir me buscar, que eu tinha que ficar com ela em São Paulo. E era para fazermos um disco juntos, mas infelizmente não deu tempo.
Eu continuo fazendo música para ela e fico imaginando como ela estaria cantando agora... acho que até sei, ela estaria dez vezes melhor, se é que isso é possível. Bem diferente dos outros artistas, Elis nunca foi fechada para coisas novas, então acho que tem muita gente boa que apareceu depois que ela se foi que ela adoraria gravar e iria deixar todo mundo maluco.
Elis ensinou a muitos como ouvir música , para outros como cantar e como fazer da profissão uma espécie de religião."
- Milton Nascimento, cantor e compositor.
  • "A primeira vez que eu vi Elis foi no ano de 1964. Eu estava fazendo um grande sucesso com a música Deixa Isso Pra Lá e fui fazer a divulgação dessa música no Rio de Janeiro. A noite eu decidi passear e acabei indo ao Beco das Garrafas, um reduto da Bossa Nova. Foi a primeira vez que vi Elis se apresentando, mas ela ainda não era muito conhecida. No mesmo ano, eu fui convidado para participar do programa Almoço com as Estrelas, apresentando por Ayrton e Lolita Rodrigues, na TV Tupi. Aí quem senta do meu lado no programa? Elis Regina... Começamos a conversar e já daí nasceu uma grande amizade. Ela me pediu um autógrafo e eu pensei que era sacanagem dela, mas não era. Aí resolvi pedir um autógrafo para ela também. No meio do programa, o Ayrton Rodrigues pediu para eu e Elis nos apresentarmos juntos. Cantamos à capela as músicas Menino da Laranja e Deixa Isso Pra Lá.
Depois disso, em abril de 1965, participamos juntos no show Dois na Bossa, em São Paulo, com direção de Walter Silva. Eu nem sabia que ela participaria também. Aquela pot-pourri de sambas foi quase de improviso. Ensaiamos aquilo 40 minutos antes do show do começar e foi o ponto alto do espetáculo. Acabamos sendo contratados pela TV Record para apresentarmos o programa O Fino da Bossa, que durou 3 anos no ar, com absoluto sucesso aqui no Brasil e no exterior também. Por conta do programa, nós viajamos para Portugal e África.
Tivemos muitos momentos marcantes no programa, mas o que mais me marcou foi uma homenagem ao Dorival Caymmi, com a música Suíte de Pescadores. Foi uma espécie de uma ópera. Durou duas horas a gente cantou e representou a música do Dorival. Além de mim e Elis, estavam presentes Elza Soares, Zimbo Trio, Tamba Trio, Jorge Ben Jor, Wilson Simonal, Maria Odete e Cláudia, cada um tinha uma participação. No final, entrava o Dorival Caymmi. Foi lindo. A TV Record reprisou o programa quatro vezes.
O Fino da Bossa era um sucesso. O programa começava às 20h30, mas às 14h a fila já dobrava o quarteirão e para não deixar esse público na mão, eu e Elis fazíamos uma segunda sessão, que não ia ao ar, era um show especial para esse público. Mas resolvemos dar um tempo porque cada um tinha que dar prosseguimento em suas carreiras. Mas a separação não foi difícil, porque não éramos uma dupla, éramos os apresentadores do programa. Nossa amizade era muito sólida para haver qualquer tipo de briga. Nós nunca brigamos. Falam do temperamento difícil dela, mas era uma defesa. Muita gente se aproximava dela para tirar proveito e ela, esperta, percebia logo de cara.
Elis sempre levou a carreira muito a sério. Ela não se contentava sem ser mais uma. Ela queria ser a maior de todas. E acabou conseguindo. Enquanto outras cantoras ensaiavam quatro vezes, ela queria ensaiar vinte ou trinta. Para ela sempre poderia ser melhor. Aí quando ela se apresentava, era aquela espetáculo, todo mundo chorava , se abraçava... Tudo o que ela gravou, dificilmente outra cantora consegue cantar igual, não adianta. Não vai ser nunca a mesma coisa. Elis se tornou uma estrela."
- Jair Rodrigues, cantor.
  • "O Zimbo Trio estava começando sua carreira e participava de um programa chamado Gente, na TV Record, apresentado por Manoel Carlos. Esse programa dele era um talk show , estilo o programa do Jô Soares, e o Zimbo fazia a parte musical dos programas e acompanhava os artistas que por lá se apresentavam. Um dia o Manoel chegou para mim e disse que iríamos receber uma menina do Rio Grande do Sul, que diziam que cantava bem e que o Zimbo deveria acompanhá-la em um número musical. Isso era março de 1964. Foi muito engraçado... Lembro que Elis chegou, sentou-se no banco do piano e eu perguntei: O que você vai cantar?. Ela olhou bem para mim e disse Você. Ela falei: Não pode, porque eu já sou noivo e comprometido. Ela ficou vesga e disse Amilton! Eu estou falando de uma música, como se já me conhecesse faz tempo. Aí perguntei se ela havia trazido a partitura da música, porque eu ainda não conhecia essa composição. Ela disse que não, mas que ela iria cantarolar e eu tirava o arranjo. Mas ela falou isso com uma convicção, parecia que ela já tinha anos de carreira. Então ela começou Você/ Manhã de tudo meu/ Você/ Que cedo entardeceu/, sugerindo como já seria a jogada da música, a entonação, o contracanto... E de repente eu estava tocando uma música que nunca havia escutado. Elis cantou e encantou. Ela fez uma coreografia, já era muito esperta no palco. Na hora me chamou atenção. Nós acabamos ficando amigos.
Logo a seguir, apareceu um convite para o Zimbo se apresentar no Peru, onde nossa disco estava fazendo muito sucesso. Nessa viagem a gente poderia levar um cantor, nos deram um lista com vários cantores famosos, mas nós preferimos levar Elis. O cartaz do show acabou ficando Zimbo Trio e una cantante, porque ninguém conhecia ela ainda. Ela já estava fazendo os shows dos estudantes em São Paulo, mas foi a primeira viagem internacional dela. O repertório que apresentamos no Peru era o que tinha de novo na música: Chegança, Esse mundo é meu, Zumbi... Ela estava lançando Edu Lobo. Foi o casamento perfeito. O Zimbo estava com uma proposta diferente da bossa nova, algo extrovertido e Elis veio com essa proposta também.
Nós pegamos o bom da bossa nova e começamos a tocar música brasileira, ao invés de temas jazzísticos. Tudo isso culminou no Fino da Bossa. A proposta inicial do programa era ter Elis, Zimbo Trio e Wilson Simonal, mas ele não pôde participar devido a um contrato com a TV Tupi. Então resolveram chamar o Jair Rodrigues. O Fino da Bossa foi um programa de altíssimo nível, por ali passou só a nata da música brasileira. Foi uma época de ouro da música. No programa, o Zimbo só poderia acompanhar a Elis ou ela com outro convidado, nós não acompanhávamos os outros artistas. Então, nós fizemos todos os primeiros arranjos dos sucessos dela. Infelizmente não podíamos gravar com ela, pois éramos de gravadoras diferentes. Só tivemos autorização para gravar um disco, o Fino do Fino. A Elis era muito ciumenta, não gostava que a gente se apresentasse com outros cantores. A Elizeth Cardoso pediu para o Paulo Machado de Carvalho, dono da TV Record, que o Zimbo Trio a acompanhasse no programa dela, a Elis ficou furiosa, mas teve que engolir.
Ela ficava nervosa quando aparecia alguma cantora e fazia sucesso. Eu falava para ela, não pode ser assim, só você quer fazer sucesso... Como foi o caso da Claudette Soares quando lançou Primavera ou Alaíde Costa com Onde Está Você... Com a Claudia foi pior, elas brigaram no palco, pois a Elis percebeu que ela tinha um grande potencial vocal. Isso gerou um problema entre a gente, eu cheguei a intervir, puro ciúmes. Ela também detestava se alguém viesse com os primeiros discos dela, ela renegava aquilo.
O processo de renovação do Fino da Bossa era impressionante. Nós éramos a vanguarda. Hermeto Pascoal subiu num palco de TV pela primeira vez, Ari Toledo e suas piadas, o Milton Nascimento... Puxa, ninguém entendia as músicas dele. Eu fiz os primeiros arranjos de Canção do Sal. A Nara Leão esnobou o Milton. Eu marquei com ela para apresentar o Milton e ela simplesmente não apareceu, mas Elis o lançou.
Depois do Fino da Bossa cada um tomou um rumo na carreira, o que era preciso. Nos encontramos novamente no final de década de 70, em um show beneficente no Jockey Club de São Paulo. Na primeira parte do show, Elis cantou acompanhada pelo Zimbo e na música Corrida de Jangada fizemos a passagem para o grupo do César Camargo Mariano. Foi sensacional porque era bem diferente a Elis cantando com a gente e com o César. Com o Zimbo, a Elis era o jazz de Nova York e com o César era o jazz de Los Angeles. Era outro balanço, outro suíngue.
A Elis era um inteligência musical. Ela batia o olho na letra e bolava como ela iria interpretar aquela canção. Ela tinha um material privilegiado, era muito afinada. Era um cavalo vencedor do Jockey, concorrendo com o burro do padeiro da esquina. Com todo o respeito às outras cantoras. Até hoje é a melhor. É a diferença entre o Pelé e os demais jogadores. Pode ter alguém muito bom, mas como o Pelé, Elis era boa em tudo."
- Amilton Godoy, pianista e faz parte do conjunto Zimbo Trio.
  • "Eu comecei a trabalhar com Elis em 1980, era início da temporada do show Saudades de Brasil, que estreou no Canecão, no Rio de Janeiro. Então ela me convidou para fazer a assessoria de imprensa e ser secretária particular dela. Como todo mundo era de São Paulo - os músicos, bailarinos e atores - todo mundo teve que mudar para o Rio de janeiro, foi uma caravana de paulistas para o Rio de Janeiro. O César foi com o jipe dele e a Elis dirigindo um carro conversível que ela tinha. E foi aquela farra pela estrada Rio-Santos, paramos todos para almoçar em Parati, foi muito divertido.
No Rio, ficamos em apartamentos alugados pelo Canecão, em Copacabana, e nos finais de semana, digo, segunda e terça-feira para nós, íamos todos para o apartamento da Elis em Ipanema e ficávamos vendo filmes, ela fazia jantares...
Ela era a mãezona de todo mundo, queria todo mundo debaixo da asa dela. Essa época ela estava ficando muito em casa, pois o show consumia muito dela, eram duas horas de espetáculo com dança e tudo mais, ela saia acabada do show. As vezes, todo mundo ia dançar na boate Noites Cariocas ou comer na churrascaria Plataforma, aí ela gostava de juntar as mesas com o Tom Jobim e com a Miúcha e ficava aquela mesa enorme, de 60 pessoas, todo mundo rindo e conversando.
Ela também tinha um mal humor, ela dizia que se infernava, mas isso acontecia porque a Elis era um pessoa muito justa, tinha suas convicções e numa discussão não tinha para ninguém, se ela entrava ela ia até o fim de detonava a pessoa. Por vezes ela era muito insistente com as idéias dela e chegava até ser chata, acho que era o lado pisciano dela, essa jeito bem eloqüente de ser. Mas durava dois minutos, ela não guardava rancor.
Elis também era muito amorosa com os seus fãs, o camarim dela era praticamente invadido, as filas eram enormes e ela sempre queria atender os amigos e pacientemente atendia aos fãs também, conversava com eles e ficava meio constrangida, pois os fãs abraçavam, beijavam e ela não sabia nem quem era a pessoa e ficava muito tímida com isso, ficava estrábica quando alguém fazia elogios. O Saudades do Brasil foi um trabalho de Hércules para Elis, pois era muito cansativo e ela já não era nenhum menina, já tinha três filhos.
Durante o show começaram os conflitos no casamento com o César, mas Elis nunca deixou isso transparecer. Ela podia estar arrasada no camarim, mas quando começava o show tudo mudava, ela tirava forças não sei de onde. Uma vez ela disse que o palco era como um parto, depois que você coloca a cabeça e começa a sair, tem que ir até o fim, alguém te empurra e você vai.
Também trabalhei com ela no Trem Azul e foi a mesma coisa, um período bem difícil da vida dela, mas sempre trabalhando muito e cuidando da casa e dos filhos. Nessa época também ajudei a Elis a separar as músicas para o disco que ela estava preparando. Ela recebia sacos e mais sacos com fitas e fazia questão de ouvir todas. Lembro que ela escolheu uma música do Nathan Marques e uma outra muito bonita chamada Sonora Garoa, mas ela estava muito nervosa pelo fato de ser o primeiro disco, depois de muito tempo, sem o César. Ficar sem o César pesou muito para ela.
Minhas últimas lembranças de Elis são muito bonitas. A primeira é do Natal de 1981, quando ela colocou uma bolsa vermelha na cabeça e deu um corrente de ouro para cada músico, que ela chamava de os sete músicos de ouro. Foi a última vez que eu vi ela muito feliz, cantando, brincando. A outra cena que guardo na memória é de uma tarde que eu cheguei na casa dela e ela estava tomando chá com a Maria Rita, que estava sentada no chão, contando histórias para a mãe. Elis deitou no colo dela e disse que a Maria Rita contava histórias como um sábio chinês. Foi muito bonito, porque Elis acabou dormindo no colo da filha. E a última vez que vi Elis, ela estava sentada no chão da sala, muito nervosa, fumando muito, e pedindo para eu resolver a questão das matrículas do Pedro e da Maria Rita e me deu uma carta para eu levar na escola, dizendo o que ela esperava do colégio, um texto lindo. Era uma mulher cheia de preocupação, não era e estrela que todos conheciam. Foi a nossa despedida."
- Celina Silva, jornalista.
  • "O meu primeiro encontro com Elis foi através de Roberto Menescal, em 1972. Eu já estava decidido a voltar para Brasília, para terminar a minha faculdade. Eu estava muito desiludido com a música, tinha tido uma passagem negativa por São Paulo. Menescal mostrou para Elis uma fita que eu tinha mandado com 4 músicas. De imediato Elis incluiu as 4 músicas no show: Mucuripe, Cavalo Ferro, Moto 1 e Noves Fora. Depois eu também fiz para ela um canto de cordel, uma canção bem nordestina que ela também colocou no show. Ela caiu do céu, mudou minha vida.
Eu acabei indo morar na casa dela e do Ronaldo. Logo depois, ela se separou de Ronaldo e ficou um pouco chateada comigo, porque eu não tomei partido de ninguém. Ela havia gravado as quatro músicas para entrar no disco de 1972, mas por conta disso só lançou Mucuripe. Gostaria de ter ouvido a gravação dela para Moto 1, pois no show era um arraso... Não sei se essa gravação ainda existe. Por causa da gravação de Mucuripe eu passei a ser assediado pelos outros cantores. Elis metia a boca, lascou. Tive mais de vinte músicas gravadas em 72, tudo por conta da Elis. A gente cantava muito em casa, eu acordava e ela já pegava o violão e pedia para eu cantar. Mostrava muitas músicas dos autores lá do Ceará. Lembro do Milton Nascimento aparecer na casa dela com o disco Clube da Esquina. Nós três ouvimos o disco juntos pela primeira vez. Elis ficou louca com o som dos meninos.
Fomos amigos durante toda a vida dela, ela sempre demonstrou uma carinho muito grande por mim. Nosso último encontro em São Paulo foi emocionante, mas eu senti que ela já não estava bem. A Elis não tinha nenhum preconceito musical, ela escutava todo mundo. Ela tinha um prazer imenso de descobrir novos talentos. Com aquela extensão, com aquela voz, um timbre brasileirríssimo... Como o de Gal Costa, mas Elis jogava mais com as interpretações das músicas. Foi um grande exemplo para mim, porque eu não tenho nenhum preconceito, canto com todo mundo, gravo com todo mundo... Sou um seguidor dela.
Que as outras cantoras se mirem em Elis, que abram o leque para todos os tipos de compositores e que não fiquem querendo gravar só os grandes medalhões da MPB."
- Fagner, cantor e compositor.
  • "Eu conheci Elis no Rio Grande do Sul, no começo da década de 60, onde eu fazia programa de rádio e de TV e por incrível que pareça, a Elis era locutora e também cantava. Quando eu a ouvi cantar pela primeira vez fiquei perplexo com a voz dela, com a interpretação. Eu sempre falava para Elis que ela tinha uma voz linda, que ela tinha que ir para o Rio ou para São Paulo.
Eu deixei de fazer esse programa no Sul e aí nós só voltamos a nos encontrar em São Paulo. Elis lembrava de mim e ficamos amigos. Ela estava um pouco perdida quando chegou em São Paulo. Inclusive, eu a levei no meu médico para ela tratar um problema de saúde. Depois veio a época dos programas na TV Record. Ela apresentava o Fino da Bossa e eu o Corte Rayol Show.
Cantamos juntos por diversas vezes, no meu programa e no programa dela também. Houve um momento inesquecível para mim que foi no Show do Dia 7, nós cantamos juntos a música Somewhere, para uma platéia de duas mil pessoas. Fomos acompanhados apenas por um violão e pelo conjutno vocal O Quarteto. Cantamos de joelhos essa música. O público todo em pé, aplaudindo, não deixa a gente sair do palco. Tivemos que bisar o número e no fim do bis, Elis chorou muito. Ela era por demais emotiva, não só na música, mas na vida também. Elis era muito intensa.
Cantamos outras músicas juntos como Carinhoso, Upa Neguinho, Das Rosas. Entre o meu programa e o Fino da Bossa, ao contrário do que aconteceu com a Jovem Guarda, nunca ouve disputa ou rivalidade. Nós ficamos muito próximos um do outro nessa época e tivemos até um namorico que foi capa de revistas. Ela tinha o apelido de Pimentinha, mas comigo ela nunca foi agressiva ou mal humorada. Acho que esse temperamento explosivo era uma barreira dela, porque ela era uma pessoa muito insegura. Até hoje tenho muito carinho e respeito por Elis.
Sou fã incondicional dela. Digo que Elis é e não era, porque o verdadeiro artista permanece através da sua obra. Ela era avançada para sua época. Suas músicas e suas interpretações são atuais até hoje."
- Agnaldo Rayol, cantor.
  • "Em 1974, Elis estava montando uma nova banda para acompanhá-la e o Luiz Chaves, baixista do Zimbo Trio, me indicou. Comecei acompanhando ela numa temporada de shows pela região sul e eu acabei sendo aprovado, acabei me encaixando no que Elis e o César Camargo Mariano queriam. Acabei participando do disco de 1974, um dos meus favoritos, que tem músicas e arranjos lindíssimos.
No mesmo ano, participei do show do álbum Elis & Tom. Depois fiz Falso Brilhante, Transversal do Tempo, Saudades do Brasil e Trem Azul, o último show dela que eu acabei assumindo a direção musical, pois Elis havia se separado do César. Eu só não participei do Essa Mulher, de 1979. A Elis e o César haviam formado uma banda para tocar no Festival de Montreaux e a idéia era prosseguir com essa banda, porém ela acabou se desfazendo e uma banda nova teve que ser montada às pressas e eu acabei ficando de fora, pois eu estava tocando com o Ivan Lins. Foram oito anos trabalhando com Elis.
  • Musicalmente para mim, atuar do lado de Elis foi um mestrado. Todo músico da MPB gostaria de ter tocado com ela. Ela era c:mpletamente moderna e arrojada, ela incentivava a criatividade dos músicos, dava liberdade total para a gente criar. A cada show o grupo se superava no palco, nunca era igual ao ensaio. Um desafiava o outro musicalmente e Elis dava essa liberdade porque ela não tinha medo nenhum, ela segurava a barra e gostava de ver a banda quebrando tudo no palco. Quando dava tempo, nós ensaiávamos muito, como no caso do Falso Brilhante, que teve até aulas de expressão corporal. Elis investia, gastava tudo que tinha, pois sempre acreditava que ia dar certo.
Também tive oportunidade de conviver muito com Elis pessoa, como amiga. Ela sempre queria que eu ficasse hospedado com ela e com o César quando fazíamos temporadas em outros estados. Tinha muita amizade, eu ia na casa dela, eles vinham para a minha. A gente cozinhava, fazia churrascos, cervejas, porres, risos, choros... Era muito legal. Tenho até hoje fitas cassetes que ela gravava e dava para eu ouvir, coisas importantes de Quincy Jones, por exemplo, que naquela época era muito difícil de alguém ter. Ela me apresentou toda essa gente, pois quando eu fui tocar com Elis eu era um baileiro, tocava na noite.
Às vezes, cantávamos depois do show no hotel. Quando não tinha mais ninguém no bar, porque Elis era muito tímida fora do palco, ela ficava cantando com o César no piano... Ela cantava blues, jazz... Outro feito dela era brigar pelos músicos. Se hoje os músicos recebem direitos conexos, têm que agradecer a Elis. Ela ajudou a fundar as primeiras associações dos músicos e sempre defendeu que os discos deveriam sair numerados da fábrica.
Tive a sorte de ter duas músicas minhas, A Dama do Apocalipse e Saia Dessa, gravadas por ela e até hoje isso me envaidece muito. Eu estava preparando o disco dela de 1982, estávamos escolhendo as músicas e eu ia fazer as bases e depois escolheríamos dois ou mais arranjadores para terminar o disco.
Na segunda-feira, dia 18 de janeiro, um dia antes dela morrer, ela estava muito ansiosa para começar o disco, ela me dizia vamos começar isso amanhã. Eu disse que então ela conversasse com o produtor da Som Livre que ele abriria o estúdio a hora que ela quisesse. Aí marquei com ela para às 3 da tarde, do dia seguinte, para continuarmos a escolher as músicas, mas foi isso. Ela já tinha escolhido algumas músicas. Eu até lembro quais, mas prefiro não dizer, porque gera uma cobrança muito grande. Muitos compositores, depois que Elis morreu, apareceram por aí dizendo que ela iria gravar músicas deles. Muitos dos que falaram isso, era tudo mentira.
É sempre bom lembrar Elis. O buraco que ela deixou... A música caiu muito. Se ela tivesse viva, eu tenho certeza que a música brasileira não estaria tão ruim.
- Nathan Marques, guitarrista.