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Darcy Ribeiro (Montes Claros, Minas Gerais, 26 de Outubro de 1922 - Brasília, 17 de Fevereiro de 1997), antropólogo, escritor e político brasileiro.
- "Gilberto Freyre escreveu, de fato, a obra mais importante da cultura brasileira".
- - Fonte: Gentidades
- "...Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado, pelas causas que comovem. Elas são muitas demais: a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que nos venceram nessas batalhas".
- - "O Brasil como problema", de Darcy Ribeiro - Publicado por F. Alves, 1995 ISBN 8526503235, 9788526503236 - 320 páginas
- "Coragem! Mais vale errar, se arrebentando, do que poupar-se para nada."
- - "Confissões" - Página 12, de Darcy Ribeiro - Publicado por Companhia das Letras, 1997 - 585 páginas
- - "Somos todos culpados: pequeno livro de frases e pensamentos de Darcy Ribeiro" - Página 63; de Darcy Ribeiro, Eric Nepomuceno, Darcy Ribeiro, Eric Nepomuceno - Publicado por Editora Record, 2001 ISBN 8501060100, 9788501060105 - 247 páginas
- "Guardo em mim recordações indeléveis das brutalidades que presenciei em fazendas de minha gente mineira e por todos estes brasis, contra vaqueiros e lavradores que não esboçavam a menor reação. Para eles a doença de um touro é infinitamente mais relevante que qualquer peste que achaque sua mulher e seus filhos. Esta alienação induzida de nossa gente, levada a crer que a ordem social é sagrada e corresponde à vontade de Deus, é que eu tomei como tema, mostrando negros e caboclos de uma humildade dolorosa diante de patrões que os brutalizavam das formas mais perversas. Tanto me esmerei na figuração destes contrastes que um pequeno bandido político em luta eleitoral contra mim fez publicar alguns daqueles meus textos de denúncia como se expressassem minha postura frente aos negros."
- - Página 231; "Testemunho", São Paulo, Ed. Siciliano, 1991, 307 páginas
- "Migo é uma espécie de retrato psicológico do intelectual na sua forma de romancista provinciano e um mergulho na mineiridade. É, na verdade, um romance confessional, em que me mostro e me escondo, sem fanatismos autobiográficos. Mais revelador, porém, acho eu, do que sou e do que penso, do que seria possível na primeira pessoa. É um texto muito trabalhado, mais que os outros. Não, talvez, pela tarimba que alcancei como romancista, mas sim por ter como fulcro a própria escritura."
- - Sobre o romance Migo, de sua autoria, e publicado em 1988
- - Darcy Ribeiro, Confissões, S.Paulo, Ed. Companhia das Letras, 1997, p. 515
- "Migo é minha autobiografia inventada, uma vida que eu até poderia ter vivido se tivesse (...) ficado em Minas."
- - Sobre o romance Migo, de sua autoria, e publicado em 1988
- - Darcy Ribeiro, Confissões, S.Paulo, Ed. Companhia das Letras, 1997, p. 515
- « Trago Minas no peito. Minas me dói, demais, de ser como é. Dói tanto que morro de raiva. O diabo é que, quanto mais odeio, mais me comovo. Deve ser isso que me faz solene quando penso Minas. Mais ainda quando escrevo. » Migo
- « Nós mineiros nos ufanamos, contentes, de ser gente de altitude. Não somos não. Minas alterosas não tem nenhum morro maior do mundo. Sequer um pico de altura assinalável, tem. Temos é serranias demais. Elas nos cercam por todo lado, tapando horizontes, limitando o mundo e o povo. [...]
- Por isso será que andamos atrasados na vida e na história? Defasados. Noutra era, sangrando e criando, nos adiantamos aos outros brasileiros. Tanto, que desde então só recuamos. Minas, tenho certeza, será o último país do mundo a fazer uma revolução para mudar. Fará quantas contra-revoluções se peçam para o mundo permanecer tal qual. Somos gente sólida, confiável. Contente não digo, mas resignada com o que o destino deu, por pouco que seja. Vivemos conformados com o milho dos pintos. Famintos.
- Operários existem aqui, se diz. Camponeses, também. Será? Nunca vi nenhum. Operários, proletários, libertários, não podem ser os que conheço. Esses nossos, satisfeitos com o que têm, só querem um pouco mais. [...]
- Camponeses? Só se for os camaradas meus enxadeiros, lá do Buritizal. Qual! Aqueles jecas querem lá saber de alguma confusão? Eles sabem muito bem, sabem de certeza certa, irretorquível, que o que vale no mundo é touro enraçado, vaca leiteira, cabra de raça. Eles, suas mulheres e crias, acham eles, sabem bem, são pobres filhos de Deus. As criaturas mais reles do mundo.
- — Deus seja louvado. Deus seja louvado. » Migo
- « Isto somos, descendentes miúdos de audazes pioneiros das agruras, virados capiaus geralistas desses carrascais do Acaba-Mundo. Imprevidentes, sem ouros, agora vendemos os ferros da morraria e tocamos fogo na mataria. Disto agora vivemos, queimando os verdes para fazer carvão. Fundindo pobres ferros de exportação.
- Hoje, Minas, careca de arvoredos, está coberta de capinzais de esperar gado que não vem. Nosso gado mais fecundo e mais reles é mesmo o povo mineiro. Largado aí, cresce, vive, morre, carpindo, aboiando, festando, adivinhando desgraças e principalmente chorando e parindo.
- O tempo a seu tempo, dirá se Minas se acaba sem glória, ou se — queira Deus — se alça, outra vez altaneira. Minas que um dia se alçou pelos ouros, pelos diamantes e pela liberdade, se alçará por si mesma? Tomara! Nada indica que isto suceda. Só de vê-los, — Ó! meu povo — a vocês e a mim também, tão pachorrentos nós todos, me revolvem as tripas. Por que esse povo meu, tão capaz de grandezas de antanho, agora é tão chinfrim? » Migo
- « Ao meu redor, nessas Minas, floresce a loucura mansa. Raramente se manifesta com coragem de si, acremente. Também nunca se esconde de todo: disfarça. [...]
- [...]
- Este meu bando de amigos — amigos? — é uma fauna esquisita. Aqui tenho cara de todo bicho. [...]
- No plano moral somos ainda menos gente. O bom mesmo, pra mim, seria me ver livre desse bando. Não tratar mais com nenhum deles, nunca mais. Stela, aloucada; Canuto, servil; Uriel, safado; o Cura, falso; Elmano, mofino; Guedes, poltrão. E para completar, eu. Eu, o quê? Tudo isso que atribuo a eles e mais: besta e metido.
- Sou democrata jurado, socialista convicto, até comunista sou, conforme a definição. Mas tudo isso com o povo lá e eu cá, sem confluências. Que intelectualidade é esta nossa? De quem ela é? Supostamente somos a inteligência do povo brasileiro e do mineiro também. Mas como é, se só nos identificamos, de fato, conosco mesmo e com os ricos que dizemos detestar? Se só servimos aos donos da vida? Esse povo está é perdido se espera alguma coisa de nós. Os educados, os lidos, os competentes, os bonitos, entre nós, são serviçais fiéis da ordem. Nós intelectuais, nos pagando com palavras de discursos literários, somos esquerdistas pra inglês ver.
- O desencontro é total. Nossa vanguarda lúcida, fiel a seu povo, não existe. O povo brasileiro está órfão. É um corpo sem cabeça. Nós, intelectuais, sem um povo com que nos identifiquemos, com horror do povo de verdade que aí está, somos uma cabeça decepada. A revolução que pregamos é para outra gente, eu não sei qual; de fato, para gente nenhuma. Mentindo, disfarçando, servimos é ao sistema, fielmente. Viva a ordem. Merda! » Migo
- « Vendo estas Minas tão mofinas, quem diria, desatinado, que escarmentado, somos o povo destinado? Somos o tíbio povo dos heróis assinalados. Eles aí estão, há séculos, a nos cobrar amor à liberdade. Filipe grita, Joaquim José responde:
- — Libertas quae sera tamen.
- — Liberdade, aqui e agora. Já!
- [...]
- Estes são nossos heróis assinalados, símbolos de uma grandeza recôndita que havia. Ainda há, eu quero crer, mais rara que os ouros, por garimpar.
- Maior que eles dois, porém, é a multidão que vou chamar. Veja:
- — Venham, eu os convoco, venham todos. Venham aqui dizer da dor dos nervos dilacerados, do cansaço dos músculos esgotados. Venham todos, com suas tristes caras, com suas murchas ilusões, venham vestidos ou nus, tal como foram enterrados, se foram. Venham morrer aqui de novo suas miúdas mortes inglórias.
- Venha primeiro você, você mineiro anônimo que furtou o crânio de Tiradentes, rezou por sua alma e o sepultou. Mas venham todos!
- Você os vê? Foram milhões de almas vestidas de corpos mortais, doídos, os que aqui nessas Minas se gastaram. Olhe de novo pra eles, olhe bem. Veja só. No princípio eram principalmente índios nativos e uns poucos brancarrões importados. Depois, principalmente negros, vindos de longe, africanos. Mas logo, logo, veja só: eram já multidões de mestiços, crioulos, daqui mesmo.
- Esses milhões de gentes tantas são as mulas desta gueena de lavar cascalhais. Vê você como eles todos nos olham, olhos baixos, temerosos, perguntando calados:
- — Quem somos nós? Existimos, para quê? Por quê? Para nada?
- Somos o povo dos heróis assinalados, mas somos mesmo é o povo dessas multidões medonhas de gentes, enganadas e gastadas. O povo escarmentado na carne e na alma. Somos o povo que viu e que vê. O povo que vigia e espera.
- Minas estelar, páramo, mãe do ferro, mãe do ouro e do azougue. Mãe mineral, fulgor sulfúrico. Minas sideral, lusa quina de rocha viva enterrada além-mar.
- Minas antiga, cruel satrápia do fel e da agonia, sou eu que te peço: ponha um final nesta agonia: relampeia. Relampeia agora, peça a morte. Morra! Morra e renasça. Rolem pedras saltadas do mar petrificado; rolem, arrombem o subterrâneo paredão de granito que aprisiona o povo e o tempo, escravizando, sangrando, esfomeando, assassinando.
- Minas, árvore alta. Minas de sangue, de lágrima, de cólera. Minas, mãe dos homens. Minas do esperma, do milho, da pétala, da pá, da dinamite. Minas carnal da flor e da semente. Minas mãe da dor, mãe da vergonha. Minas, minha mãe crepuscular.
- Havemos de amanhecer. O mundo se tinge com as tintas da antemanhã. » Migo
- De fato quando você faz aparentemente atitudes altruístas e generosas você faz também atitudes egoístas.
[editar] Atribuídas
- "Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca".
-
- - citado em "Conceitos e Verdades" - Página 7, de Lúcio Gusmão Lôbo, Thesaurus Editora, 2001, ISBN 8570622562, 9788570622563
- "Os soldados saíram de Roma a 2000 anos. Chegando na península ibérica, latinizaram os íberos. Ficam dormindo 1500 anos lá. Depois saltaram o mar, o oceano, e vieram pra cá. Falando a língua dos romanos! E aqui, essa língua dos romanos se expandiu por esse povo que é de 160 milhões. É o maior dos povos latinos! É mais que França somada com Itália, com Portugal, com Espanha, com Romênia! Quem mais representa como massa humana a Latinidade somos nós, os mestiços Brasileiros. Nesse sentido, nós somos a Nova Roma, uma Roma que o mundo vai ver, espantado, no momento em que realizarmos nossa potencialidade — tantas! — no momento em que resolvermos problemas elementares: que todo mundo coma todo dia, que toda criança tenha uma escola, que se façam aquelas reformas urbanas e rurais para que a terra seja acessível para quem trabalha, para que as cidades sejam a morada dos homens — cordial. Nesse dia, vai florescer no mundo uma civilização diferente, que nunca ninguém viu. (...) Ao lado dos eslavos — milhões de eslavos! —, ao lado dos neo-britânicos — milhões! —, ao lado dos chineses — milhões! —, dos árabes — milhões! —, de outros — milhões! —, existirá essa face morena." [carece de fontes]